“𝗗𝗲𝘃𝗶𝗮𝗺 𝗱𝗮𝗿 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘃𝗮𝗹𝗼𝗿 𝗮𝗼𝘀 𝘃𝗲𝗻𝗱𝗲𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗱𝗲 𝗿𝘂𝗮, 𝗽𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗮̃𝗼 𝗮 𝗮𝗰𝗮𝗯𝗮𝗿” – Fernanda Costa – Vendedora de Castanhas
“A diferença é da noite para o dia”, diz uma cliente sobre o que distingue as castanhas de compra e as que ela própria compra a Fernanda Costa, há cerca de trinta anos: “estas, podem-se comer todas, menos as cascas”, afirma.
Fernanda explica que, para além do assador próprio, do carvão utilizado, o segredo tem a ver com a qualidade das suas castanhas: “a castanha que sai para a loja, é a castanha mais barata, não é escolhida, a minha castanha é selecionada, por isso, é mais cara, é Martaínha do melhor, é a melhor castanha que existe, não há castanha melhor”.
Uma castanha que, na opinião de Fernanda, tem tanto de saborosa como, este ano, de cara, muito à conta dos incêndios que assolaram o país: “este ano, o preço disparou, porque arderam os castanheiros quase todos”, afirma Fernanda, que chegou a temer não ter produto para vender: “sabe que um castanheiro demora dez anos a dar castanhas”, afirma, retoricamente.
“Olhando para o lume, já sei se ele está pronto para assar ou não”, explica Fernanda, antes de colocar as castanhas, já cortadas e temperadas com sal.
O lume que lhe assa as castanhas é o mesmo que, por vezes, também a queima, no sentido literal da palavra: “isto é uma profissão que ninguém quer, porque a gente está sempre queimada, não vê a roupa? Às vezes, tenho as mãos todas queimadas”. Fernanda relembra que, num dos dias altos do negócio, o dia de São Martinho, “até a barriga tinha queimada”.
Para além do calor das brasas, o vendedor de rua está à mercê do tempo, seja ele, qual for.
Daí, a profissão de vendedor de rua ser, na opinião de Fernanda, muito difícil e pouco valorizada: “a pessoa não dá valor ao vendedor de rua, um vendedor de rua, para muitas pessoas, não é nada, não sabem o sacrifício que a gente passa para estar aqui, apanhamos calor, apanhamos frio, apanhamos gente boa, apanhamos gente muito mal-educada, que goza, alguns, tratam-nos como lixo”.
Para além do tratamento, Fernanda alerta que esta pode ser uma profissão em vias de extinção. Quem, em tempos foi pioneira, teme agora ser das últimas: “deviam dar muito mais valor aos vendedores de rua, porque estão a acabar. Até eu puder, vou andando”.
Para além da falta de valorização e da própria dificuldade inerente a vender na rua, Fernanda refere o estigma, os olhares que ainda sente quando entra num estabelecimento com porta aberta, ao contrário do seu, que a porta é a céu aberto: “ando farrusca, queimada, suja, às vezes, entro numa loja e fica tudo a olhar para mim, porque vêm-me assim”.
Em contrapartida, Fernanda tem clientes há quase tantos anos, quantos que vende, mas também muitos que já partiram: “tenho clientes que compravam muito, que já faleceram, e que depois vêm os filhos”.
Enquanto assa castanhas, Fernanda também ouve e é nelas, nas outras vidas, que relativiza os problemas da sua: “tanta e tanta desgraça mas eu, tudo o que me dizem, sou um túmulo. As pessoas desabafam, às vezes com pessoas desconhecidas, porque hoje em dia, já não há amigas como antigamente. Às vezes, a gente pensa que tem um problema, ouve os problemas dos outros e são maiores do que os nossos”.
Natural do Sabugal, Fernanda tem 66 anos de idade e vive na cidade de Castelo Branco desde os cinco. Os pais eram feirantes, mas não lhe passaram a arte de vender castanhas: “fui eu que tive a iniciativa de vender, às vezes, ia a Lisboa, via a vender, via que aqui, em Castelo Branco, não havia nada e decidi experimentar, a ver se dava”.
Um negócio que, segundo Fernanda, só vai dando para comer: “vai-se sempre vendendo, quem gosta de castanhas, compra, mas está tudo mais caro…vai-se ganhando alguma coisinha para comer de inverno, e para comprar as castanhas, não dá para mais nada. Há pouco lucro, porque compramos a castanha muito cara”.
Nasceu nas feiras e não se imagina, nem a fazer outra coisa, nem em outro lugar: “gosto disto, não me dou em outra vida, só me dou nisto” afirma, acrescentando que, inclusive, tem convites para ir vender castanhas a aldeias onde não se vendem, mas que não vai: “eu estou na minha terra, resido cá, estou cá há muitos anos, opto por vender aqui”.
Para Fernanda Costa, “uma cidade sem castanhas, não é cidade”.
A tradição das castanhas é uma coisa que nunca deve morrer porque é uma coisa bonita, uma tradição muito antiga”, remata, antes de começar a cortar mais uma saca de castanhas.
