O meu Natal!

O meu Natal!

As filhoses na casa da avó Leopoldina
É Natal! Nestes dias mais nostálgicos, o frio ’obriga-nos’ a ficar junto à lareira. Uma lareira com cassete, muito longe daquela do sótão da avó Leopoldina, onde eram feitas as filhoses.
Era um dia de muita azáfama, os primos de Viseu, a Tété e o Xandinho, já tinham chegado. A Tucha, vinha de mais longe, de Penafiel, e nós, eu e a Tété, esperávamos desassossegadas.
Não havia telemóveis, por isso, aguardávamos com alguma ansiedade. Os adultos preocupavam-se com a ementa da noite de Natal, que estava a chegar. Falava-se no bacalhau, nas couves que a vizinha ’Messe’ já tinha oferecido e nos ovos que se tinham juntado ao longo dos últimos dias, quando eu acompanhava a avó Leopoldina ao galinheiro, para os recolher.
Os adultos saíam para ir às compras e chegavam carregados.
No dia seguinte era dia de festa para nós, porque era dia de fazer as filhoses.
Quando os tios, finalmente, chegavam de Águeda, eu e a Tété puxávamos a Tucha e corríamos pela quinta, hoje pejada de prédios.
O regresso já era feito de noite e depois de muitos berros das nossas mães, que nos chamavam de uma das varandas da casa da avó Leopoldina.
A noite era barulhenta, mas não fazia mal. A família estava reunida. Durante a tarde, eu e os primos já tínhamos explorado os recantos onde poderíamos ir ao ‘musgo’. Trabalho que guardávamos para a manhã seguinte quando as nossas mães e a ti Adelaide estavam empenhadas na massa das filhoses.
Depois do jantar, na casa da avó Leopoldina, a noite era barulhenta e alegre, com muitas cantigas de Natal.
Depois, era hora de ir para a cama. Eu e as primas, dormíamos com a avó Leopoldina, lá em cima, no quarto ao fundo do corredor, do lado direito, ficávamos ainda algum tempo na brincadeira, muitas vezes aos pulos na cama, até que vinham sossegar-nos e obrigar-nos a dormir.
Mesmo com a luz apagada a paródia continuava ainda durante alguns minutos até que o cansaço tomava conta de nós e nos fazia adormecer, com a certeza de que o dia seguinte era de festa, porque era dia de fazer as filhoses.
A Ti Adelaide chegava bem cedo, com o seu aspeto imponente de muitos quilos acima do desejável e todos sabíamos o que ia acontecer.
Os ingredientes para a massa das filhoses, já estavam em cima daquele móvel de madeira, branco, já bem antigo e forrado em com um plástico de xadrez vermelho. A masseira estava em cima de duas cadeiras (uma só não chegava).
A azáfama começava. Nós, eu e os primos já tínhamos descido e tomado o pequeno-almoço. Bem agasalhados, porque a manhã estava fria, pegávamos nuns sacos e numa cesta e íamos à aventura e diretos ao local que tínhamos escolhido de véspera para recolher o musgo. E naquela altura, havia tanto…
Algumas vezes acompanhava-nos um adulto, outras íamos mesmo sozinhos.
Quando chegávamos a massa já estava a fintar, mas houve um dia ao longo de tantos anos em que a rotina se repetiu, que pudemos assistir ao fazer das filhoses. Lá fora chovia e nós prometemos estar sossegadinhos. Foi difícil, mas aguentámos. Ainda hoje guardo o papel amarelecido pelo tempo e cheio de nódoas de gordura, que foi sendo replicado… com os ingredientes e a forma de fazer as filhoses da ti Adelaide.
É perceptível ver o seguinte: 0,5 Kg de farinha de trigo; 75 g de manteiga; um cálice de aguardente; 6 ovos; 1 laranja; 1 colher de chá de fermento de padeiro; açúcar e canela; sal qb; azeite qb. Claro que estes ingredientes eram triplicados e quadruplicados.
Depois era amassar. Deitava-se a farinha e juntava-se uma pitada de sal, os ovos, o açúcar, o fermento e o sumo de uma laranja, e a aguardente e amassa-se até conseguir uma massa homogénea. Alisa-se a massa, embrulha-se e deixa-se num lugar quente.
Por norma, a avó Leopoldina deixava um aquecedor ligado no quarto do rés-do-chão, onde dormiam a tia Milú e o tio Valdemar.
Durante a tarde os preparativos para as filhoses continuavam e quando chegávamos ao pé da massa que ia ser levada para o sótão, ela duplicara de tamanho. Era, para nós, o milagre do natal.
Tudo isto a propósito da lareira, hoje com cassete, a impedir a fritura no lume. Na altura a ‘chamada’ lareira, era simplesmente um retângulo mais elevado no soalho do sótão da avó Leopoldina. Por cima, uma ligeira abertura para sair o fumo. Não era uma chaminé, apenas e mesmo uma ligeira abertura. Naquela parte mais baixa do telhado juntava-se a lenha
A ti Adelaide, subia as escadas, a custo, até ao sótão. Junto ao lume encontrava-se já uma cadeira de palha ligeiramente mais baixa, onde a ti Adelaide se sentava. Por cima do joelho, que iria servir de ‘molde’ para as filhóses colocava um plástico. E começava o ritual da feitura faz filhoses. As crianças aguentavam-se por ali, sempre à espera que a ti Adelaide lhes fizesse um boneco com um bocado de massa. Às vezes pedia-nos a nós que o fizéssemos.
Do outro lado, havia uma mesa com algumas iguarias para se ir petiscando. E claro, o garrafão do tinto, que ia aquecendo as gargantas e os corpos, fazendo esquecer o frio.
Esta foi, durante muitos anosuma das noites que antecedia o Natal, na casa da avó Leopoldina. Claro que, noite dentro, os cânticos que começavam afinados, iam desafinando na mesma medida que o vinho ia escorrendo pela garganta.
Oh! Meu menino Jesus! Oh! meu menino tão belo, logo vieste nascer, na noite do caramelo!!
Estavam feitas as filhoses. Agora, sim! Era Natal!!
Cristina Mota saraiva

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