Ir ao musgo com o avô Zé dos Santos
Hoje, na sociedade de consumo imediato (como reza a música dos Táxi), desconfio que cada vez menos pessoas se dêem ao trabalho de sujarem as mãos e os sapatos à procura de musgo.
Preferem comprar, seja verdadeiro ou de imitação.
Entretanto, percebi, também que os ambientalistas defendem a proibição da apanha de musgo e parece que nos Açores está mesmo proibida.
Mas, antigamente, com o aproximar do Natal, era tradição as famílias irem ao campo apanhar musgo para o presépio.
Esta época da família, da amizade da paz é para mim, também, época de recordações! Recordações boas que me trazem memórias, que quero transformar em histórias. A construção do presépio que ocupava sempre lugar de destaque, mesmo sendo empurrado para o canto da sala, para que todo o espaço ficasse disponível para as mesas (era sempre mais que uma)… dizia, a construção do presépio, uma verdadeira aldeia, era um momento solene, de responsabilidade e de alegria.
Esta aldeia, apesar de não ter uma planta definida, era pensada e estruturada ao pormenor por nós pequenos arquitetos, eu e os primos. Era diferente a cada ano e tinha tudo: a igreja, a ponte, o poço, o lago, os caminhos definidos com areia, ou farinha (que também era usada para imitar a neve) e depois, as imagens, para além da sagrada família, José, Maria, o burro, a vaca, a manjedoura… e o menino só era colocado na noite de 24… juntavam-se-lhes o pastor, e as respetivas ovelhas. E depois, distribuídos por montes e vales, os reis magos (um deles já ajoelhado, outro em pé e o outro ainda em cima do camelo). E havia, ainda a lavadeira, a igreja, o poço, o lago onde colocávamos o patinho, … enfim uma panóplia de imagens que, com o aproximar da data, enriquecíamos, com outros que adquiríamos ali no mercado, à segunda-feira.
Mas, para que toda essa construção, resultasse melhor, eram necessário fazer o enquadramento. Havia que sair e ir quinta fora à procura de outros ‘matariais’: como pedras, pequenos galhos… e o musgo, claro… o musgo!!! Hoje em dia essa tradição perdeu-se… esta sociedade de consumo imediato (como diz a música dos Táxi), esqueceu o verdadeiro musgo e a fazer-se o presépio tentando manter a tradição, preferem comprar, seja verdadeiro ou de imitação! Não é a mesma coisa, mas pronto, é a evolução dos tempos….
Pedras e mais pedras, grandes e pequenas ou outras coisas que iam aparecendo, como pequenas planta silvestres que depois serviam para imitar as hortas.
Hoje, desconfio que, cada vez menos pessoas, se dão ao trabalho de sujar os sapatos e as mãos à procura de musgo.
Mas, nós fazíamos questão de manter a tradição. E o avó Zé dos Santos fazia questão de nos acompanhar. Lá vinha ele, manhã cedo desde a Rua D’ Ega, no Castelo, onde morava, até à Rua Padre Manuel Crespo, onde eu e os primos estávamos.
Era a casa da avó Leopoldina, de depois andares e ali vivíamos. Eu e os pais, no andar de cima, os primos, os tios e a avó, no andar debaixo.
O Natal era a época mágica, especialmente para nós crianças. Era o momento de sonhar e acreditar no extraordinário.
E nesse dia de ir ao musgo não custava levantar e ansiávamos que chegasse a manhã. Já estávamos preparados, com os sacos prontos, para irmos com o avó Zé. Em fila indiana, lá entravamos na quinta, que mantinha sempre os portões abertos. O avô Zé ia à frente, “a comandar as tropas”, como dizia, e olhava de um lado para o outro, perscrutando cada recanto na tentativa de encontrar o musgo. E lá seguíamos. A procura era atenta. Até que o avô parava repentinamente e apontava aquela pedra mais escondida nas sombras e, por isso mesmo mais húmida e ideal para criar musgo. Munidos de facas, daquelas que cortam manteiga no verão, lá retirávamos, cuidadosamente grandes placas de musgo. Os sacos enchiam-se e tornavam-se cada vez mais pesados. Até que o avô dava por terminada a tarefa. “Já chega, meninos, vamos embora que está na hora do almoço”. E nós obedecíamos. Sacudíamos as mãos cheias de terra húmida, fazíamos o mesmo com as roupas e regressávamos, contentes, com o avô Zé dos Santos.
Apesar da sua provecta idade, o avô Zé carregava os sacos pesados, não deixando que nós os transportássemos. É que, num dos natais em que cumpríamos a tradição, eu e o primo Artur, cada um pegando em sua asa e balançando o saco na brincadeira… este rebentou-se… o musgo espalhou-se e as diversas placas cortadas a preceito partiram-se e desfizeram-se.
Ralhete merecido!! Ainda assim, o avô Zé dos Santos, com todo o cuidado e paciência, lá conseguiu e salvar algumas placas. A partir daí fazia questão de ser ele a transportar o musgo. Chegávamos cansados, mas felizes, nós e o avô Zé!
Nos Natais seguintes, o avô Zé dos Santos, fazia-se acompanhar de uma cesta de verga quadrada, que comprou propositadamente, para transportar o musgo.
Assim começava a época mais mágica do ano! Assim começávamos felizes a celebrar o Natal.
O avô Zé dos Santos também regressava feliz à casa da Rua d’Ega, onde o esperava a avó Piedade, que era simultaneamente minha madrinha.
Já partiram ambos, restam as memórias e as histórias e tantas que o avô Zé dos Santos me fez viver.
Cristina Mota Saraiva
