Hoje falo de Ernesto Pinto Lobo, o homem, o professor, o cidadão, o amigo. Faria neste dia 23 de fevereiro, 87 anos.
“Um lobo com muita pinta”. Este foi o título que dei à última entrevista que lhe fiz. Já estava doente, mas aceitou de imediato o meu pedido. Toda a gente o conhecia, toda a gente o admirava, muita gente recorria a ele.
Eu que tinha uma gigantesca admiração por ele, subi as escadas da antiga Biblioteca Municipal (Biblioteca que ele criou), na Praça de Camões, algo nervosa. Queria perpetuar o momento. Fiz-lhe várias entrevistas, falei inúmeras vezes com ele, conversámos tantas ocasiões, mas esta era a ENTREVISTA!
E foi. Uma daquelas que maior gosto me deu fazer, ao longo dos meus quase 30 anos de carreira.
– Oh! filha o que é que achas, está bem assim? Perguntava a propósito de algo. E eu sentia-me importante. Afinal aquele homem muito acima, com uma inteligência e uma cultura ímpares, queria saber a minha opinião! Mas não era só a minha, também ouvia o Zé Carrega, a Salete, a Martinha, o Quim, o senhor Salvado e os seus órgãos sociais.
Presidiu anos a fio a Orquestra Típica Albicastrense, que só largou quando a doença o apanhou de surpresa.
Ernesto Pinto Lobo a todos tratava de igual forma. Não lidava bem com “os senhores morgados”, como o diz a música de Adriano Correia de Oliveira:
“O Senhor Morgado, vai no seu murzelo
Todo empertigado, é um gosto vê-lo.
Próspero anafado, véstia alentejana,
Calça de riscado, homem duma cana”.
Ernesto Pinto Lobo era um homem terra a terra, se calhar também por isso todos o admiravam, apesar de estar num patamar acima do nosso (meu e dos restantes elementos da Orquestra Típica Albicastrense e de quase toda a cidade), sabia colocar-se ao nosso nível, sem qualquer pejo.
Culto, simples, divertido. São adjetivos que caraterizam perfeitamente Ernesto Pinto Lobo, o doutor Ernesto, ou simplesmente o Pinto Lobo.
Lembro as lições de etnografia que nos dava nas inúmeras noites que passávamos na sede da Orquestra Típica Albicastrense, ali, na rua do Pina e as histórias dos seus tempos de Coimbra, as anedotas, tanta e tanta coisa. Mas quando era para ser sério também o sabia ser. E falávamos, discutíamos, aprendíamos e logo depois, pegava na viola e deliciava-nos com a sua voz… e vinha o fado de Coimbra, a cantiga de intervenção, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, e mesmo o tal Adriano Correia de Oliveira. Não faltava, também nestas noites culturais, ainda, a música popular. E a eterna Maria Faia… para além de ”Saudades da Beira” que, em palco, insistia em deixar os outros cantar.
Ah! E o boca de sapo. o eterno carro , que o caraterizou durante anos.
Também esteve na Rádio Juventude, de fraca memória, onde, com a Salete Afonso, enriqueceu a estação e desenvolveu um trabalho único, como ele.
Compreendido. Era assim que dava por terminada a conversa quando esta extrapolava. E não posso esquecer o Cancioneiro da Beira Baixa e tudo o que fez para o catapultar para a ribalta.
Ernesto Pinto Lobo levou o nome da cidade, do concelho, do distrito, além fronteiras!
E esta cidade nunca soube reconhecer devidamente o seu valor, a sua pessoa, o muito que fez por ela, pela região e pela cultura. E, não! Não é o facto de ter recebido uma medalha da cidade, o nome de uma rua, que colmata essa falha. Era preciso muito mais. E não falo de homenagens bacocas, ou cerimónias estéreis. Falo de justiça! Justiça para com aquele que tanto, mas tanto fez por Castelo Branco e pelo seu concelho, pela cultura de ambos e tão depressa foi esquecido. Mesmo pelas instituições por onde passou que tinham por obrigação, distinguir o homem que, também, criou a Biblioteca da cidade, que a engrandeceu, que a enriqueceu e que a viveu.
E os filmes que fez, as recolhas que registou, os cantares que guardou e promoveu.
A atribuição de uma medalha e do nome de uma rua, que fica não sei bem onde, ‘lá para trás do sol posto’, como diria o próprio se andasse por cá, friso estas ‘cerimónias’ aconteceram para cumprir calendário. Essas distinções não tiveram o brilho, o realce, a importância que deveriam ter tido. Foram ocasiões, apenas! Só para dizer que se fez. sem consistência, sem esforço, sem interesse.
Ernesto Pinto Lobo merecia e merece mais.
Que os responsáveis desta cidade e das instituições por onde passou se lembrem disto! Neste dia 23 de Fevereiro, se fosse vivo, Ernesto Pinto Lobo cumpriria 87 anos. Nasceu no Tramagal, mas considerava-se um albicastrense de gema.
Parabéns, doutor! Lá em cima haverá festa, haverá uma guitarra, haverá uma Maria Faia cantada com a voz do génio e no final, acontecerá ainda um momento com os seus rasgos de genialidade, de humor, de bem fazer!
Obrigada doutor por tudo o que me ensinou, pelas conversas que me enriqueceram e pelas diversas entrevistas que me concedeu, mas sobretudo pelas tertúlias maravilhosas que nos ofereceu, lá na Rua do Pina. PARABÉNS!
Cristina Mota Saraiva
