“Há uns anos atrás, para uma pessoa abrir um salão, eram necessários certos requisitos. Agora, uma pessoa passa um dia, e está uma loja vazia, passa no dia seguinte, e já lá está alguém” – Eduardo Antunes, Cabeleireiro de homens há trinta e oito anos
Hoje é Eduardo Antunes que corta o cabelo àquele que, outrora, lhe ensinou o ofício: o seu pai, Miguel Antunes, de oitenta e nove anos de idade. É assim, pelo menos, uma vez por mês.
“Do tempo do meu pai, eu penso que é capaz de ser o único que ainda está vivo”, refere Eduardo, a propósito da carreira do pai, que toda a vida cortou cabelos, na cidade de Castelo Branco. Começou ainda `garoto`, aos onze anos, e manteve-se em atividade até aos setenta e poucos.
Com ele, Eduardo aprendeu as bases, que lhe permitiram construir a vida que tem.
“Comecei a ir para ao pé do meu pai nas férias da escola, do secundário. Nas férias grandes estava mais tempo e era durante essas que apanhava mais bases”, explica Eduardo, acrescentando que, na altura, alguns clientes mais próximos, amigos, em que existia mais afinidade e mais confiança, começaram a deixá-lo pôr as mãos na tesoura.
Não se recorda do seu primeiro corte, mas do sentimento que experienciou, nos primeiros: “havia aquele medo, aquela ansiedade, um pouco de nervosismo”.
Sobre quantos cortes já terá feito na vida, Eduardo afirma já terem sido milhares.
Eduardo tem cinquenta e nove anos de idade e é cabeleireiro de homens, há cerca de trinta e oito anos.
Após várias formações e ateliês técnicos, tirou a Carteira Profissional de Cabeleireiro. Estávamos em 1987. “Na altura, vinha uma equipa de Lisboa, da Associação dos Cabeleireiros e Barbeiros, onde era, antigamente, o Quartel dos Bombeiros. Foi aí que foi tirada. Nós fazíamos várias provas, eles avaliavam e davam, ou não, conforme a habilitação, a Carteira Profissional”, relembra Eduardo, acrescentando que a sua: “foi tirada com mérito, segundo eles”.
Na opinião de Eduardo, a vida não é feita de muitas histórias em que os filhos tenham seguido a profissão dos pais, pelo que afirma ter sido um momento de orgulho para o pai, quando este filho conseguiu a sua Carteira Profissional de Cabeleireiro.
Apesar de envelhecida pelo tempo, ainda hoje a traz na sua carteira. O número, esse sabe-o de cor: “é o 144”.
Eduardo começou a trabalhar com o seu pai no antigo Largo da Devesa, no centro de Castelo Branco. “O meu pai esteve aí trinta e tal anos”, relembra.
Eduardo aí permaneceu cerca de dez anos, até abrir o seu próprio salão, na zona da Sé Catedral de Castelo Branco, na Praceta da Rua Ruivo Godinho. “Foi uma nova etapa, onde ainda estive cerca de
dezoito anos. Foi um certo orgulho, um pouquinho de nervosismo, de ansiedade”, relembra Eduardo, acerca dessa etapa na sua vida.
Os lugares mudaram, mas o nome do espaço foi sempre o mesmo, não fosse o seu nome próprio: Eduardo Antunes Cabeleireiro.
Foi há cerca de dez anos que Eduardo abriu o salão, onde se mantém, até aos dias de hoje, na zona de Santiago. “Adoro o sítio, é a minha zona de residência, gosto muito deste local”, afirma Eduardo.
À entrada do estabelecimento, uma vitrina exibe alguns troféus e medalhas acumulados ao longo de trinta e oito anos de profissão, como o Campeonato Nacional de Cabeleireiro ou o Concurso Figueira Moda 94 – Prova Homens. “Ainda tive um quarto lugar, um sexto e um oitavo. Sinto-me bem, porque, ao longo da minha vida, tenho tido algum reconhecimento pela minha profissão”, diz, acerca destes seus tesouros.
Miguel Antunes, o pai e mentor, está presente na vida e no salão do filho, numa moldura, colocada de forma a que todos os clientes a possam ver.
Oito máquinas compõem a mesa comprida: umas de definição, outras de corte.
Muitas tesouras, “mais de vinte”, pelas contas de Eduardo. E escovas, que guarda numa mala comprada numa feira de antiguidades.
“Não é só trabalhar com um instrumento em específico, não é só trabalhar com máquina, há o trabalhar com a tesoura, o trabalhar com a navalha, o trabalhar de muitas maneiras e eu posso dizer que me sinto à vontade com todas elas”, explica Eduardo, realçando a importância da navalha, um instrumento de precisão, na efilagem das pontas: “A efilagem faz com que o corte assente melhor, fique melhor numa finalização”.
No seu salão, Eduardo faz de tudo um pouco: “corte, lavagem, aparar a barba, quando falo em aparar a barba, os contornos, as definições”.
Sobre o que lhe dá mais prazer na profissão, Eduardo não hesita na resposta: “a inovação, porque os cortes não são todos iguais, vão surgindo novas tendências, e tento estar sempre a par dessas novas tendências. A inovação dá asas à criatividade”. Para este cabeleireiro, esta é uma profissão “que não é sempre igual” e que não deixa de ser uma arte.
Tal como outros, ou quase todos, este é um negócio que vive muito da lealdade dos clientes: “há um grande lote de pessoas, a maior parte, eu diria, que têm preferência e são fiéis ao cabeleireiro, porque, depois, começa-se a estabelecer uma relação entre o profissional e o cliente, que vai além do trabalho, há uma certa amizade, um certo conhecimento mútuo, um certo relacionamento e criam-se laços”, afirma Eduardo, acrescentando ter um elevado número de clientes que que se mantém fiéis às suas mãos.
Para este cabeleireiro, são eles quem fazem a sua carreira profissional, apesar de o cliente ocasional ser sempre bem recebido. E tem muitos. “Como estou aqui perto do hotel, tenho alguns que vêm, passam, e nem são daqui. Depois, fico satisfeito com os elogios que me dão”, afirma Eduardo, que também tem clientes que não residem em Castelo Branco, mas vêm aos fins-de-semana: “estão em Lisboa, Porto, Braga, estão a trabalhar pelo país fora. Fico realizado e contente porque constato que eles vêm e cortam aqui, não cortam nos sítios onde estão”.
Os clientes habituais, a não ser que queiram algo diferente, já não precisam falar para Eduardo saber o que querem.
“Eu vejo logo o tipo de cabelo, vejo logo o que lhe fica bem, o que não fica, e já estou a prever o que vai querer”, diz Eduardo acerca dos novos clientes, acrescentando, em tom de brincadeira: “o cabelo fala conosco, porque diz o que pretende, embora, às vezes, o cliente não saiba”.
O perfil dos clientes também tem sofrido alterações, desde o tempo em que Eduardo trabalhava com o pai: “havia homens que estavam três meses sem cortar o cabelo, ou era a mulher que dizia para irem cortar o cabelo. Hoje em dia, o homem cuida-se mais, cuida da sua aparência, preocupa-se, e acho que isso é de salutar”.
Eduardo sempre foi cabeleireiro de homens e defende essa especialização: “é totalmente diferente o corte do homem e o corte da mulher, as técnicas utilizadas são diferentes”.
Há quem diga que um corte de cabelo pode mudar uma vida. Eduardo não vai tão longe: “eu acho que aumenta, acima de tudo, a auto estima da pessoa, gosto muito de ver quando o cliente sai daqui satisfeito porque, ao fim, ao cabo, sinto um bocadinho da alegria do cliente”.
A partir da Pandemia da Covid-19, Eduardo começou a trabalhar, apenas, por marcação: “foi a única coisa boa que a Pandemia trouxe, foi habituar todas as pessoas a trabalhar por marcação. É muito melhor para o cliente e para nós. O cliente não tem esperas, à hora combinada, o cliente é sempre atendido”.
Para explicar o atual estado da profissão, Eduardo recua no tempo: “há uns anos atrás, para uma pessoa abrir um salão, eram necessários certos requisitos, nomeadamente a Carteira Profissional e tudo isso. Com tanta abertura, vejo que há salões que abrem de um dia para o outro, na altura que eu abri, não era assim, era necessário tratar de mil e uma coisas, mil e um documentos. Agora, uma pessoa passa um dia e está uma loja vazia, passa no dia seguinte e já lá está alguém. Não sei se existem mais facilidades ou não, mas tenho a sensação que sim”.
“Levar a profissão a sério” já era uma máxima do seu pai, que Eduardo segue, religiosamente: “levar a profissão a sério, com profissionalismo, com dedicação e estima”.
“No fim, quando o cliente gosta de ver o trabalho finalizado, sinto-me realizado, sinto-me contente. Ainda hoje me continuo a sentir contente, porque, ao fim, ao cabo, nunca fiz mais nada na vida”, afirma este Cabeleireiro de homens, um dos mais antigos na cidade de Castelo Branco.
