"𝗦𝗲𝗶 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗶𝘂 𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝘂𝗻𝗰𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘃𝗮𝗶 𝗵𝗮𝘃𝗲𝗿 𝗺𝗮𝗿𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗰𝗮𝗳𝗲́𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗻𝗼𝘀 𝘃𝗲𝗿𝗺𝗼𝘀

"𝗦𝗲𝗶 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗶𝘂 𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝘂𝗻𝗰𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘃𝗮𝗶 𝗵𝗮𝘃𝗲𝗿 𝗺𝗮𝗿𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗰𝗮𝗳𝗲́𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗻𝗼𝘀 𝘃𝗲𝗿𝗺𝗼𝘀

“𝗦𝗲𝗶 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗶𝘂 𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝘂𝗻𝗰𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘃𝗮𝗶 𝗵𝗮𝘃𝗲𝗿 𝗺𝗮𝗿𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗰𝗮𝗳𝗲́𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗻𝗼𝘀 𝘃𝗲𝗿𝗺𝗼𝘀 𝗲 𝗽𝗶𝗼𝗿, 𝗻𝘂𝗻𝗰𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗮 𝘃𝗼𝘂 𝗮𝗯𝗿𝗮𝗰̧𝗮𝗿” – Ana Perpétuo

Ana Paula Lopes era natural da aldeia do Vergão, em Proença-a-Nova. Era funcionária da Misericórdia de Lisboa, onde trabalhava na direção de Infância, Juventude e Família. Era filha, irmã, esposa, mãe e amiga.

Uma das suas amigas de infância, Ana Perpétuo, conversou com a Beira Baixa TV sobre quem foi. Uma homenagem a uma mulher, “miúda” nas palavras da amiga, “genuinamente boa e preocupada com os outros”

“É uma miúda muito lutadora, sempre foi”. Ana Perpétuo ainda utiliza o tempo verbal, presente, para descrever a amiga de infância, Ana Paula Lopes, que partiu no passado dia 3 de setembro, na sequência do descarrilamento do Elevador da Glória, em Lisboa. Foi uma das dezasseis vítimas deste acidente.

As duas “Anas” têm uma diferença de, apenas, dois meses de idade. Ambas nasceram em Angola e cresceram juntas. Os pais eram amigos, “quase família”. Foi lá que viveram até 1976, altura em que vieram viver para o mesmo concelho em Portugal, Proença-a-Nova, porque ambas tinham família neste concelho do distrito de Castelo Branco. Ana Paula foi viver para a localidade de Vergão, onde fez a escola primária, e Ana Perpétuo para a aldeia de sua mãe, tendo feito a primária em Proença. “Nessa altura, víamo-nos mais aos fins-de-semana, quando os nossos pais se visitavam, e aproveitávamos para brincar”, lembra Ana.

Os seus percursos escolares cruzaram-se no ensino secundário, que fizeram juntas até ao décimo primeiro ano e, anos mais tarde, quando ambas entraram para a universidade, em Lisboa: “ela, em Serviço Social e eu, em Direito”, conta Ana, que relembra que, nessa altura, a sua amiga chegou a ter dois trabalhos para pagar os estudos e as suas coisas. “não era bem por necessidade que o fazia, mas por brio, para ser ela a conseguir sozinha e com o seu esforço”. Essa era também uma forma de Ana Paula ajudar os seus pais.

Para além de “muito lutadora”, Ana Paula é descrita pela amiga como: “uma miúda que gostava muito de viver, de viajar, de conhecer outros lugares e culturas diferentes”. Ana Paula viajou e conheceu mas, nas palavras da amiga, tinha ainda “muito para palmilhar”.

“E, claro, era uma humanista, pela educação que recebeu dos pais, a profissão que exercia, pela sua própria experiência de vida: a vinda de Angola para Portugal não foi fácil, nem para os nossos pais, nem para nós, e fez-nos olhar o mundo de outra maneira e com mais empatia”, relembra Ana, acrescentando que: “a Paula sempre foi super responsável, em tudo, e eu admirava isso nela” e dá um exemplo: “nos tempos de faculdade, em que tinha dois empregos, ela conseguia estudar, trabalhar por turnos e sair à noite conosco para o Bairro Alto, para o Jamaica e tantos outros sítios onde fomos tão felizes”.

Ana lembra que teve oportunidade de ver peças de teatro com a amiga, porque tinha um primo que dava os primeiros passos nestas lides, o que, para si, “era um sonho, vinda da província, sem acesso a cultura, naquela altura, era maravilhoso poder assistir a boas peças de teatro. Por essa altura, conheceu muita gente através da Ana Paula.

Foi esta Ana que fez a outra, apaixonar-se pelo curso de Serviço Social e ganhar coragem para alterar o seu percurso académico e mudar de curso.

Ana oscila entre o tempo verbal presente e o passado, como se a amiga continuasse à distância de um telefonema. “É uma miúda genuinamente boa e preocupada com os outros”, e exemplifica: “sempre que me aparecem situações complicadas de pessoas com necessidades, costumo chatear os amigos, através das redes sociais, para me ajudarem…a Paula ajudava sempre que podia, nos pedidos que eu publicava, ajudou-me com algumas situações em que havia necessidade de encaminhamento para outras estruturas de apoio, principalmente nas zonas de Lisboa e do Algarve, onde ela também chegou a viver e trabalhar”.

Para Ana, a “miúda” ou, simplesmente, a Paula, é sinónimo de família. “Ela ama a família, como é raro isso acontecer, hoje em dia…quando digo família, não falo só na direta, mas na alargada, tinha um orgulho enorme e carinho por cada pessoa da família…era muito de afetos, o pilar, no sentido de conforto, de distribuição de amor”.

Muitos foram os momentos que as amigas partilharam, ao longo de uma vida de amizade. Muitas “primeiras vezes”. À Beira Baixa TV, Ana recuou muitos anos atrás, cerca de trinta, e partilhou alguns deles.

“A Paula, quando entrou na faculdade, fumava de vez em quando, em alturas de stress, frequências, por exemplo e como o pai tinha um café, era fácil para ela ter acesso a tabaco (falamos de há trinta e tal anos atrás) nos fins-de-semana que vínhamos “à terra”. Houve um domingo que tínhamos vindo e estávamos só as duas em casa (deste quarteto faziam também parte, a Paula e a Lena), jantamos e bebemos café para começarmos a estudar e a Paula acendeu um cigarro, antes de se concentrar no estudo. Eu pedi um para experimentar…nessa noite, fumei-lhe o maço todo que, para ela, daria quase para um mês. No dia seguinte, fui comprar dois maços, um para mim e outro para ela. Ela continuou a fumar dois maços de tabaco por mês, eu comecei a comprar de três em três dias. Fumavamos sj eu, gigante e ela, filtro. Ela, entretanto, parou. Eu continuo. Deixou de fumar, de todo, e eu nunca deixei.

Foi o meu anjo da guarda durante o décimo primeiro ano, na viagem de finalistas e outras que fizémos, até na faculdade. Eu não tinha limites, era um bocado arruaceira, ela sim e tomava conta de mim. Livrou-me de algumas confusões, nessa altura.

E tenho uma história muito bonita que aconteceu em 2017. Eu estive a ajudar refugiados na Sérvia e, um dia, depois de ter publicado uma história sobre a importância de os miúdos terem bons ténis para caminhar, recebo uma mensagem da Paula a dizer que me tinha depositado dinheiro para eu comprar uns bons ténis a um dos miúdos. Foi o que fiz, fui a uma das melhores sapatarias de Belgrado comprar umas sapatilhas a um miúdo que, na altura, tinha treze anos. A única exigência que me fez foi eu não fazer publicidade sobre a ação dela. Dizia sempre isso. E sei que ajudava muito mais gente, sem ser no exercício das suas funções, mas simplesmente como Paula, a “nossa Paula”.

Foi no dia seguinte à tragédia que Ana soube dela: “Através do meu irmão, que me telefonou a dizer que andava a circular uma notícia nas redes sociais, a dizer que ela era uma das vítimas. Na altura, não acreditei e achei que era um boato, mas enviei-lhe, de imediato, uma mensagem. Como não obtive resposta, enviei também à Sandra, uma amiga em comum que vive em Lisboa, mas que também não sabia de nada e que, por sua vez, ligou à Marina, outra amiga, que também ficou incrédula e que confirmou a notícia com o marido da Paula”.

Sobre como reagiu, Ana considera ainda não o ter conseguido, de facto, fazer: “Eu acho que ainda não reagi, ainda parece tudo um pesadelo, ainda é difícil encaixar tudo e o porquê está sempre a aparecer na minha cabeça”.

Tem a certeza de que a amiga nunca será esquecida: “nunca se esquece ninguém que faz parte da nossa vida e que, ainda por cima, nos fez bem e felizes, e tenho a certeza de que ninguém, cuja vida, de uma maneira ou de outra, tenha sido tocada por ela, se esquecerá, e havemos de encontrar uma forma de nos reunirmos e nos lembrarmos dela, havemos de pensar em alguma coisa”.

Para além da saudade, ficam muitas perguntas sem resposta, “onde a palavra porquê estará sempre presente”…”ela não fazia aquele percurso muitas vezes mas, naquele diaz, fez e isso mudou tudo”.

Ana confessa que tem chorado muito, de raiva e de tristeza, pelos abraços que ficaram por dar, as conversas que ficaram por ter, as gargalhadas que não saíram do peito: “a vida leva-nos a viver sempre com pressa e sem tempo para o que é realmente importante, e eu adiei muitos encontros com a Paula, por falta de tempo, por desencontros nas vindas à terra, por mil e um motivos sobre os quais, agora, já nada se pode fazer”.

Sobre o que sente mais saudades, Ana afirma que, para além do sorriso, é de tudo: “porque, embora, atualmente, não estivesse tão presente na vida dela, eu sabia onde ela estava, como estava, o que fazia, sabia que estava feliz e realizada”.

No fundo, Ana sabia que a amiga vivia. Agora sabe que não: “Sei que partiu e que nunca mais vai haver marcação de cafés para nos vermos e pior, nunca mais a vou abraçar”.

Até porque, relembra, os abraços da amiga Paula, sabiam “a casa”.

“Agora é hora de dar espaço ao luto, sem grande ruído, sem informações desnecessárias, nesta altura, de tanta dor para a sua família”.

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