“O ex-libris da Retrosaria Gama é a “história” que estamos a criar – a de um casal jovem que acreditou e pegou numa retrosaria de 100 anos, prestes a fechar, para lhe dar a volta” – Urânia Brasil e Daniel Fernandes
O chão é centenário, mas assim que se pisa, a primeira impressão é a de se entrar num novo mundo encantado da costura.
Qualquer coisa que venha à memória, relacionada com esta atividade, decerto tem espaço, neste espaço. Inclusive, conjuntos de agulhas para tapeçaria com mais de uma década, que ainda servem o seu propósito.
Urânia conta, pelo menos, oito seções na sua retrosaria: tapeçarias e lãs; crochês; fitas e passamanarias; tecidos vários; linhas para costura e para bordar; atoalhados; área bebé e ferragens várias.
Atrás do balcão corrido, saltam à vista as milhares de linhas para bordar, em todas as cores “possíveis e imaginárias”, de várias marcas.
Estão guardadas em dezenas de pequenas gavetas transparentes, para serem visíveis aos clientes.
É ao pé das linhas que Urânia gosta de estar, daí o seu pequeno atelier ser mesmo junto delas, das linhas e à distância de um estender de braços.
Uma veia artística que herdou da sua avó e talvez do seu avô, que fazia pequenos trabalhos de carpintaria.
Uma arte que lhe está no sangue e nas mãos.
É com elas, e naquele cantinho, com vista para a rua, que faz os seus retratos bordados, algo que começou em plena pandemia da Covid-19, e que foi impulsionado depois de um artigo publicado por uma revista dinamarquesa.
Urânia está a meio de um retrato bordado de um casal que é fã dos AC/DC, pelo que o nome da banda australiana irá fazer parte do conjunto.
O retrato é feito através do envio de fotografias, que Urânia utiliza para fazer a composição, para “retirar os traços dos rostos”.
Neste caso, a linha verde utilizada na zona dos olhos, não deixa dúvidas de que a mulher tem olhos verdes, assim como as linhas cor-de-rosa utilizadas nas maçãs do rosto, fazem imaginar as faces coradas que também deve ter.
É sempre enviado um rascunho ao cliente, para uma primeira aprovação. Neste caso, Urânia alterou o fundo, que terá flores bordadas.
Os retratos bordados de Urânia têm uma lista de espera que pode variar entre seis a doze meses.
Mas não só de retratos bordados vive a arte de Urânia, que também pinta. Foi esse, aliás, o maior trabalho que teve até ao momento, uma grande tela em acrílico.
As laçadas que se entrelaçam, ou seja, as linhas para crochê, continuam a ser o material com mais saída na renovada Retrosaria Gama. E, atualmente, os kits surpresa de tapeçaria, que não deixam adivinhar qual o desenho seguinte a bordar.
Para além da loja física, o “grosso” das vendas acontece online, no Instagram.
Urânia é natural da Ilha de São Jorge, nos Açores, e Daniel Fernandes, da localidade de Palvarinho, Castelo Branco.
Conheceram-se na UBI – Universidade da Beira Interior, quando Urânia frequentava o curso de Design de Moda.
Depois da Covilhã, Lisboa e Porto, foi Castelo Branco que escolheram para assentar e para criar a sua história: “a de um casal jovem que acreditou e pegou numa retrosaria de 100 anos, prestes a fechar, para lhe dar a volta”.
É esta a entrevista à Beira Baixa TV.
BBTV – O que motivou dois jovens, a Urânia e o seu namorado, Daniel Fernandes, a adquirir uma retrosaria centenária?
URÂNIA – “Por causa do meu projeto de bordado, Urânia Design, já era cliente desta retrosaria. Mesmo enquanto vivia no Porto, aproveitava quando vinha a Castelo Branco para comprar cá o meu material e ia muitas vezes à Retrosaria Gama. Quando me mudei para cá, passei a frequentá-la ainda mais, ficava a falar muitas vezes com o antigo dono, Sr. José Luís, que era uma simpatia, e o Daniel muitas vezes ía comigo, por isso também passou a conhecer bem a loja. Mais tarde, depois do falecimento do Sr. José Luís, conhecemos a Dona Arminda, esposa dele, que continuou com a loja e que, a certa altura, final do ano passado, começou a dizer-me que estava a pensar em trespassar a loja. Ora, toda a vida sempre tive imensa vontade de ter um negócio próprio, acho que sempre tive o “bichinho” do empreendedorismo, porque sempre inventei coisas para fazer “extra” os trabalhos que tinha como designer, e o Daniel também tinha essa vontade. Conversámos, vimos ali uma boa oportunidade para associar o negócio ao meu projeto, que já tinha alguma visibilidade, e sobretudo vimos nele potencial para ser levado para o online, pelo tipo e variedade de artigos que tinha, e até também por ser uma casa com mais de 100 anos, que era por si só uma história cativante para contar. Então, após muita ponderação, decidimos avançar e comprar o trespasse, e cá estamos nós”.
BBTV – São os terceiros proprietários da retrosaria. Decidiram não alterar o nome para manter a tradição e honrar o primeiro proprietário, Martinho Gama? Mantiveram também os fornecedores?
URÂNIA – “O Sr. Martinho Gama, da aldeia do Palavrinha, curiosamente a aldeia de onde o Daniel é natural, foi quem fundou a Retrosaria Gama, em seguida o Sr. José Luís, que trabalhou nela desde criança, deu continuidade, mantendo o nome, e por uma questão de honrar a sua origem, mas também por ser uma casa já com “nome feito” na cidade e arredores e também juntos dos fornecedores, achámos que não faria sentido mudar, aliás, nunca foi sequer assunto em que tenhamos pensado, para nós estávamos a comprar a “Retrosaria Gama” para lhe dar continuidade em toda a sua essência, incluindo fornecedores com quem a casa já trabalhava. Mas estamos abertos a conhecer novos fornecedores também, queremos trazer e oferecer o melhor possível aos nossos clientes”.
BBTV – Um atelier e loja para os retratos bordados que a Urânia faz. É esta a vossa visão para o espaço? Qual o potencial do mesmo?
URÂNIA – “Como grande parte do meu tempo trabalhava em casa, pensava muito em ter um espaço físico aqui em Castelo Branco, para poder separar os dois ambientes (pessoal e profissional), permitir que as pessoas vissem o que faço ao vivo e, eventualmente, tendo mais espaço físico disponível, também expandir a Urânia Design, pondo em prática novas ideias. Então esta oportunidade da retrosaria foi juntar o útil ao agradável. Apesar de o espaço ser pequeno, visualizámos um cantinho perto de uma das montras onde tenho mais luz, fico perto das linhas, que dá muito jeito, e posso trabalhar nos meus bordados, enquanto não estou a atender pessoas. Ainda está “em construção”, mas essa é a ideia”.
BBTV – Já era cliente da Retrosaria Gama devido ao seu projeto, Urânia Design, que surgiu por volta de 2019, quando trabalhava como designer de têxteis?
URÂNIA – “Sim, já conheço a Retrosaria Gama desde essa altura, desde que comecei a procurar material para fazer as minhas primeiras experiências em bordado”.
BBTV – Os trabalhos feitos à mão pela Urânia são o ex-líbris da Retrosaria Gama? São um dos pontos que a distinguem de outras retrosarias?
URÂNIA – “O facto de a retrosaria ser o meu espaço de atelier para desenvolver os meus bordados distingue-nos porque não é uma coisa habitual, e ajuda a destacar-nos também, mas achamos que o ex-libris da Retrosaria Gama é a “história” que estamos a criar – a de um casal jovem que acreditou e pegou numa retrosaria de 100 anos, prestes a fechar, para lhe dar a volta, modernizar o negócio e dar-lhe continuidade, quando o que mais se vê são negócios tradicionais a fechar, infelizmente”.
BBTV – Inspirou-se no Bordado de Castelo Branco para criar uma estética que representa caras e que é muito semelhante ao cubismo?
URÂNIA – “O meu tipo de desenho manual é muito marcado por linhas mais retas e de traços rápidos, que é como eu gosto de desenhar (semelhante ao cubismo, de facto), e foi daí que surgiu a minha estética pessoal – rostos “boxy” marcados por traços fortes, que depois são “pintados” com bordado livre, com cores vivas que me caracterizam, com diferentes materiais e texturas.
Adoro o bordado de Castelo Branco, e inspiro-me também nalguns tipos de pontos dele, mas tal como me inspiro noutros bordados tradicionais e sobretudo no trabalho de outros artistas. O meu bordado é livre, não se prende a nenhum bordado típico, é no fundo um mistura de várias inspirações que resultaram numa coisa pela qual, pelos vistos, as pessoas já me identificam – o que é incrível, porque nem tenho bem noção disso até algumas pessoas me dizerem, às vezes, que viram e perceberam logo que era trabalho meu, sem lerem nada. Isto é maravilhoso”.
BBTV – O que sente enquanto borda? O facto de serem rostos torna o processo mais intimista?
URÂNIA – “Quando tenho o bastidor preparado com o tecido bem esticadinho e já com o desenho feito, só pronto a decidir a primeira cor que vou enfiar na agulha para começar a bordar é das melhores sensações que posso ter, é um emergir numa serenidade incrível juntamente com uma explosão de ideias que surgem umas a seguir às outras para decidir a próxima cor, o próximo ponto, como fazer a textura, a direção da linha… e por largos momentos não se pensa em mais nada a não ser naquele momento agradável e saudável.
O facto de serem caras torna sem dúvida o processo mais intimista, porque as pessoas partilham muito de si comigo para eu as conhecer melhor e fazer os retratos mais de encontro ao que elas são, e às vezes acaba-se até mesmo por desenvolver ali relações de amizade”.
BBTV – Tem uma lista de espera que pode variar entre seis a doze meses?
URÂNIA – “É verdade, além de ser um trabalho extremamente lento de se fazer, felizmente não tenho mãos a medir para as encomendas, e a lista de espera estende-se cada vez mais. Stressa-me que as pessoas tenham de esperar tanto tempo pelo meu trabalho, mas por outro lado normalmente compreendem e encomendam na mesma”.
BBTV – A retrosaria está a funcionar desde 29 de setembro. Como tem sido a aceitação por parte dos albicastrenses a este projeto mais contemporâneo? Entram e fazem perguntas?
URÂNIA – “Muitas pessoas entram porque já eram cá clientes antes de pegarmos no negócio, e comentam muito o facto do espaço estar completamente diferente, de sermos um “casalinho novo” a pegar naquilo, e gostam bastante. Depois, temos tido também muitas pessoas a virem cá porque nos viram nas redes sociais, ou porque alguém que conhecem viu e disse-lhes para virem, é super giro. Essas pessoas perguntam mais sobre o meu trabalho, pedem para ver o que estou a fazer de momento, perguntam sobre projetos de workshops”.
BBTV – Os primeiros workshops já estão a ser planeados? Há muita curiosidade por parte das pessoas em relação ao processo e ao desenho de ensinar a sua arte aos outros?
URÂNIA – “Já temos imensas ideias em relação a workshops, estamos a planear o espaço físico para isso, e até já pensámos em pessoas cujo trabalho gostamos e que gostávamos de também convidar para virem cá ensinar. Gostávamos de começar a aplicar esta ideia ainda antes do Natal, não temos datas concretas, mas provavelmente em Novembro já devemos começar”.
BBTV – “Uma montra rotativa”. É assim que querem que a retrosaria seja conhecida, futuramente?
URÂNIA – “O que pretendemos é servir um bocadinho de “montra” para artes têxteis de pessoas cujo trabalho gostamos e achamos que faz sentido estar ali. Ainda é um projeto a pensar e estruturar melhor até porque temos sempre a condicionante do espaço físico, mas está definitivamente nos planos da Retrosaria Gama”.
