“Ouvimos um estrondo enorme, como que se de uma bomba se tratasse” – O relato de uma albicastrense retida num cruzeiro no Dubai
O objetivo da viagem era “único e pessoal”.
Em pleno processo de terapia de luto, e após muita hesitação e reflexão, Adelaide Claro, 67 anos, professora do ensino secundário, recém-reformada, decidiu aceitar o convite de uma amiga de longa data, Rosário Gama, e embarcar a bordo de um cruzeiro que iria permitir, ao grupo de vinte e nove pessoas a bordo, conhecer alguns países dos Emirados Árabes Unidos.
O cruzeiro partiria do Dubai às 20h00 do dia 28 de Fevereiro, rumo ao Qatar, Bareign e Abu Dabi, e regressaria na manhã do dia 06 de Março. Este era o itinerário de um cruzeiro que não chegou a desatracar do Porto Rashid, no Dubai.
À chegada ao Dubai, enquanto visitava a cidade, este grupo foi “presenteado” com o ataque de Trump e Netanyahu ao Irão e o início da guerra no Médio Oriente: “só depois, no fim do dia, já instalados no navio, fomos informados pelo comandante, que o espaço aéreo tinha sido encerrado e que o cruzeiro estava cancelado”.
Apreensiva, num primeiro momento, Adelaide Claro chegou a arrepender-se, de ter ido: “foi-nos sempre feito, três a quatro vezes por dia, o ponto da situação, pelo comandante do navio MSC Euríbia, que estava em constante articulação e contacto com as autoridades locais e o embaixador; transmitia-nos calma e segurança, garantindo sempre que, dentro do navio, estávamos seguros; informava também das diligências que estavam a fazer para que todos pudessem regressar aos seus países, e ainda que o governo local tinha diligenciado junto de todos os hotéis do Dubai para nos receberem, de forma gratuita, independentemente da nacionalidade, caso alguém preferisse ir para um hotel em vez de ficar no navio; de igual modo também nos informou que todos nós seríamos reembolsados, na totalidade, do valor do cruzeiro e que teríamos acesso a internet gratuita enquanto ali estivéssemos; portanto, conforto não nos faltou, mas o constrangimento e receio ou expetativa do que pudesse ocorrer no dia ou hora seguinte era uma constante”.
Adelaide Claro recorda o que ouviu, num início de tarde, no 18º andar, onde estava com quatro amigas:
“Ouvir o ruído forte de um avião, olharmos para onde vinha o ruído, lá bem alto, e de nada se ver, provavelmente pela elevada altitude e velocidade a que se deslocava, mas de repente, ouvimos um estrondo enorme, como que se de uma bomba se tratasse; de imediato, soou no navio a sirene-alarme SOS e simultaneamente o toque e aviso nos telemóveis de que todos se deviam recolher no interior do navio, longe de varandas, janelas ou portas exteriores; soubemos, entretanto, que o estrondo ouvido tinha sido provocado pela intercessão de um míssil, cujos destroços ofereciam, naturalmente, grande perigosidade”.
Este suceder de antimísseis a defender o Dubai tornou-se parte do dia-a-dia a bordo do navio: “o que, se por um lado, transmitia alguma segurança, por outro transmitia receio e ansiedade, pelo possível agravamento da situação do conflito no Médio Oriente e pelo facto de não termos certeza de que o nosso voo de regresso se pudesse concretizar na data prevista”.
Mas concretizou, apesar das cerca de 5h30 de atraso.
Nunca, em toda a vida, Adelaide Claro desejou tanto pisar solo português, mas as imagens do que viu, ainda em solo árabe, estão vivas na sua memória: “no aeroporto vimos gente a fugir da guerra, com pais que se perderam dos filhos e muita gente que não conseguiu vir; alguns pediram para serem repatriados e seria o que eu também teria feito, no caso de não ter conseguido voo naquele dia”.
O cruzeiro e as respetivas ligações, não chegaram a realizar-se, mas o facto de ter ficado retido, permitiu outras ligações: “não houve cruzeiro, mas houve a possibilidade de reforçar laços de amizade e de criar novas amizades, mesmo com outros portugueses que ali se encontravam sem serem do nosso grupo de Coimbra; foi, de facto, uma aventura num “cruzeiro potencial”, que não saiu do porto, mas que criou memórias jamais esquecidas; a metodologia da terapia que esperava encontrar neste cruzeiro foi assim substituída por um suceder de situações inesperadas e nunca antes vividas”.
Dos três cruzeiros anteriormente feitos por Adelaide Claro, este cruzeiro que o não chegou a ser foi, sem dúvida, o mais memorável.
