"Nunca perdemos a esperança. Agarravamos-nos à força que o Vicente nos dava e se

"Nunca perdemos a esperança. Agarravamos-nos à força que o Vicente nos dava e se

“Nunca perdemos a esperança. Agarravamos-nos à força que o Vicente nos dava e sempre acreditámos na Teresa. Ela sabia que o mano ia “ficar muito bom” – Pais do Vicente Ribeiro, diagnosticado com um tumor maligno raro aos 16 meses de vida

Este ano, os Festejos em Honra de Nossa Senhora da Saúde, em Termas de Monfortinho, no concelho de Idanha-a-Nova, celebram a vida com esperança renovada.

A batalha travada e ganha pelo Vicente, e pela família, ‘contra’ um tumor maligno raro, transformou a festa num evento solidário, com parte dos lucros a ser doada ao Serviço de Pediatria do IPO de Lisboa.

Uma vitória que inspirou a Comissão de Festas de 2026, e que dá um novo significado aos Festejos em Honra daquela que é venerada como padroeira dos enfermos e doentes.

Esta é a entrevista dada pelos pais do Vicente Ribeiro, Marisa Morera e Bernardo Ribeiro, à Beira Baixa TV.

Beira Baixa TV – O Vicente foi diagnosticado com um tumor maligno raro, aos 16 meses de vida. Tudo começou com a observa-
ção de uma massa no pescoço, assintomática?

Marisa – “Sim. A meio de Dezembro de 2024, notámos que o Vicente tinha uma massa no pescoço, sem qualquer tipo de sintomas associados”.

Beira Baixa TV – O diagnóstico, de um Sarcoma Sinovial, foi feito no IPO – Instituto Português de Oncologia de Lisboa. Qual foi
a vossa reação imediata, ou seja, como se recebe, enquanto pais de uma criança, na altura, com 16 meses, este diagnóstico? Como recordam esse dia? A vossa vida mudou?

Marisa – “Nós já sabíamos do diagnóstico antes da primeira consulta. São das (des) vantagens de ‘ser do meio’. Foram dias muito difíceis. A única coisa clara que nos recordamos da primeira consulta foi o pensamento de que não podíamos ficar
sem o nosso bebé. A nossa vida mudou, claro. Tivemos de reformular as nossas rotinas diárias, tentando afetar o míni-
mo possível os dois bebés que tínhamos”.

Beira Baixa TV – Estamos a falar de um tumor maligno raro de partes moles?

Marisa – “Sim”.

Beira Baixa TV – O facto de ambos os pais serem profissionais de saúde ajudou na aceitação, compreensão e literacia relativa-
mente à doença? Ou o facto de terem mais conhecimento, provocou mais angústia?

Marisa – “Ajudou em muita coisa, a nível de procedimentos, exames e técnicas que tinhamos pela frente mas, ao mesmo tempo, provocou muito mais angústia. O estar muito ciente de números, probabilidades e riscos não ajuda a manter a positividade, quando o cenário é mau”.

Beira Baixa TV – O Vicente fez quimioterapia no IPO. Como reagiu, fisicamente e a nível comportamental, e como esses trata-
mentos foram vividos a nível familiar, também pela irmã, Teresa?

Marisa – “Ele foi incrível! Aliás, todas as crianças que encontrámos lá eram incríveis. Enquanto fazia a quimioterapia, nunca deixou de brincar, correr, sorrir. Claro que ficou mais debilitado e tinha períodos mais parado, mas reagiu muito bem a tudo. Até
à mudança para ambientes hospitalares. A nossa rotina familiar mudou draticamente nesses meses, mas valeu-nos o
apoio que a nossa família nos deu”.

Beira Baixa TV – Como foram explicados esses tratamentos a uma criança de tão tenra idade, neste caso, à irmã? O que lhe era dito?

Marisa – “A Teresa na altura estava prestes a fazer três anos. Dissemos-lhe que o irmão tinha um “dói-dói” grande e que ele e a mãe
iam ter de ficar no hospital uns dias, mas que iam voltar para casa. Dentro da (pouca) compreensão dela, reagiu bastante
bem. Ela dizia que “o mano vai ficar muito bom”.

Beira Baixa TV – Seguiu-se a radioterapia, na Alemanha. Era a única alternativa de radioterapia adequada? Não hesitaram em
ir?

Marisa – “Não era a única alternativa, mas foi o primeiro centro a dar resposta no tempo útil que precisávamos. Em Portugal não realizam, ainda, este tipo de radioterapia. Não hesitámos nunca. Íamos onde fosse preciso”.

Beira Baixa TV – Entre tratamentos e complicações pós-tratamentos, foram cerca de dois meses. A vossa vida mudou, também em termos logísticos? Como foram esses meses?

Marisa – “Não foram fáceis, mas o facto de estarmos os quatro lá, ajudou muito. De manhã íamos ao centro onde o Vicente realizava o tratamento. Demorava cerca de uma hora. Depois tinhamos o dia para aproveitar (dentro do possível) em família.
Recordamos esses meses e essa rotina com algum carinho”.

Beira Baixa TV – Em algum momento, perderam a esperança? A que se ‘agarravam’?

Marisa – “Nunca perdemos a esperança. Agarravamos-nos à força que o Vicente nos dava e sempre acreditámos na Teresa. Ela sabia que o mano ia “ficar muito bom”.

Beira Baixa TV – O Vicente teve alta, com controlo trimestral?

Marisa – “Sim. Tivemos alta no início de Agosto e agora a cada três meses repetimos exames de controlo”.

Beira Baixa TV – Como está o Vicente, neste momento? Que criança é, e de que forma a doença o mudou?

Marisa – “É uma criança perfeitamente normal, cheia de vida e energia! Não sabemos em que é que a doença o mudou, ou se o mudou, mas acreditamos que, interiormente, teve muito impacto nele”.

Beira Baixa TV – Quais os vossos receios, enquanto pais? Aumentaram? São pais diferentes do que eram?

Marisa – “Somos pais bastante descontraídos, e mantemo-nos assim. Claro que, a cada três meses, o coração aperta e o medo vem ‘ao de cima’. Acho que agora olhamos para a vida de forma diferente”.

Beira Baixa TV – Exercia Enfermagem e deixou essa atividade. Teve alguma coisa a ver com a doença do Vicente?

Marisa – “Não diretamente. Antes do diagnóstico eu já estava a ponderar mudar para algo que me permitisse estar mais com eles e vê-los crescer de forma mais presente. A doença do Vicente só veio confirmar que era a decisão certa”.

Beira Baixa TV – Quais os conselhos que podem deixar a outros pais que se encontrem a enfrentar esse tipo de diagnóstico?

Marisa – “Não há muito que se possa dizer, porque cada um de nós tem forma diferentes de viver as situações. Mas o que podemos dizer é que o amor cura, e que temos de acreditar sempre! A bolha de amor e a fé foram tão, mas tão grandes, que acreditamos que isso nos manteve de pé”.

Beira Baixa TV – Este ano, parte dos lucros da Festa em Honra de Nossa Senhora da Saúde revertem para o Serviço de Pediatria
do IPO de Lisboa. Esta vitória do Vicente merece ser celebrada?

Marisa – “Sem dúvida! Mas essencialmente, o serviço de Pediatria e os profissionais que ali trabalham merecem melhores condi-
ções. Aquele local foi a nossa casa durante três meses, e é a casa de muitas famílias durante muito mais tempo, e essas
famílias também merecem ter um espaço com melhores condições”.

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