Maestro Bruno Borralhinho quer reforçar presença da música portuguesa na Alemanh

Maestro Bruno Borralhinho quer reforçar presença da música portuguesa na Alemanh

Maestro Bruno Borralhinho quer reforçar presença da música portuguesa na Alemanha

O maestro e violoncelista português Bruno Borralhinho vai assumir em setembro a direção musical do Erzgebirgische Theater und Orchester, na cidade de Annaberg-Buchholz, na Alemanha, prometendo reforçar a presença da música portuguesa no repertório.

Natural da Covilhã, Borralhinho foi escolhido entre 63 candidatos para dirigir a instituição cultural sediada na Saxónia, num processo de concurso público em que os músicos da orquestra participaram diretamente na decisão final.

O músico descreveu a nomeação como “uma grande honra”, mas também como “uma grande responsabilidade”, numa fase particularmente exigente para o setor cultural alemão.

“As instituições culturais alemãs atravessam atualmente um período muito sensível em termos financeiros”, observou à agência Lusa. Ao mesmo tempo, acrescentou, o setor enfrenta transformações profundas na relação com o público e na forma como enquadra a sua atividade artística na sociedade.

Encontrar um equilíbrio entre restrições orçamentais e uma oferta cultural atrativa será um dos principais desafios do mandato.

“É muito importante ser criativo, mas, ao mesmo tempo, muito rigoroso e criterioso”, sublinhou, em declarações à Lusa.

Apesar das dificuldades, Borralhinho considera que a forte tradição musical alemã continua a ser uma fonte de inspiração.

“A tradição no âmbito da música clássica é sem dúvida uma inspiração e uma oportunidade para aprender e evoluir a cada passo que damos”, sustentou.

Mas essa herança implica também elevados níveis de exigência.

“Trabalhar apenas bem pode ser insuficiente, e é importante colocar a fasquia muito alta e explorar os nossos próprios limites”, acrescentou.

Questionado sobre as diferenças entre os públicos dos dois países, o maestro apontou para o peso histórico da educação musical na Alemanha.

“Na geração das pessoas que agora têm 50 ou 60 anos na Alemanha, quase toda a gente aprendeu e tocou um instrumento quando era criança ou jovem. Em Portugal não”.

Ainda assim, rejeita a ideia de que a música clássica deva estar reservada a especialistas.

“Adoro quando as pessoas batem palmas entre andamentos. É um ato de sinceridade e de reconhecimento, é o público a querer participar e interagir com o palco”.

Sobre Portugal, considera que o principal problema não é a falta de qualidade artística.

“Vontade, talento e qualidade em Portugal, hoje em dia, não faltam”, sustentou.

Na sua opinião, o que continua a faltar é investimento público e privado capaz de garantir estruturas culturais mais sólidas.

A primeira temporada sob a sua direção incluirá obras de Mahler, Bruckner, Mozart, Beethoven, Stravinsky, Prokofiev e Arvo Pärt, bem como a estreia absoluta da opereta contemporânea “A Borboleta”, do compositor alemão Daniel Behle.

O novo diretor musical pretende igualmente estreitar as ligações culturais entre Portugal e a Alemanha.

O seu primeiro concerto como maestro titular do Teatro e Orquestra de Erzgebirge incluirá uma obra de Fernando Lopes-Graça, enquanto os concertos de Ano Novo apresentarão música de José Vianna da Motta, Luís de Freitas Branco e Frederico de Freitas.

“Há imensa música portuguesa que merece ser tocada e ouvida, tanto ou mais do que outra que habitualmente faz parte dos programas de concerto”, esclareceu.

Borralhinho revelou ainda estar a trabalhar em possíveis parcerias com instituições portuguesas.

Quanto ao futuro da música clássica, admite que os desafios são cada vez maiores. “É urgente que as pessoas sintam que a ópera, um concerto sinfónico ou um recital de música de câmara não são eventos ‘snobs’ para engravatados ou ‘freaks'”, defendeu.

“É urgente que o próprio meio musical erudito por vezes saia do seu pedestal e da sua zona de conforto e mostre o seu lado mais humano e mundano”, concluiu.

Músico da Orquestra Filarmónica de Dresden durante quase duas décadas, Borralhinho é diretor artístico do Ensemble Mediterrain, do Concurso Internacional de Música Júlio Cardona e diretor musical do Beyra – Ensemble Orquestral da Beira, segundo a biografia patente no seu próprio ‘site’.

Estudou na Escola Profissional de Artes da Beira Interior, antes de fazer uma licenciatura e pós-graduação na Universidade de Artes de Berlim. Completou a formação em Oslo com o violoncelista norueguês Truls Mørk.

Mais tarde, fez um mestrado em Gestão Cultural em Barcelona e doutorou-se em Humanidades na Universidade Carlos III, de Madrid, com um trabalho sobre “as relações entre o poder e o campo da música erudita em Portugal ao longo do século XX”.

Várias vezes premiado, já editou múltiplos discos em editoras internacionais, como a Naxos, para a qual gravou um álbum dedicado a Fernando Lopes-Graça com a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

Texto: Lusa
Foto: Facebook/ Erzgebirgische Theater und Orchester

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