Bordado de Castelo Branco conquista novos públicos em Lisboa através de workshops esgotados
A Retrosaria Rosa Pomar, em Lisboa, voltou a receber, no passado dia 30 de maio, mais uma oficina de Bordado de Castelo Branco orientada por Catarina Tudella, fundadora da Seda & Companhia. A sessão voltou a esgotar, confirmando uma tendência que se tem repetido nos últimos anos: o crescente interesse do público pelas artes têxteis tradicionais e pelo património cultural português.
Os workshops integram uma programação regular que Catarina Tudella tem vindo a desenvolver há cerca de três anos. Com grupos reduzidos a apenas seis participantes, as vagas costumam desaparecer rapidamente. “De facto, é algo que acontece regularmente. As pessoas têm demonstrado um interesse muito grande por este trabalho”, afirma a formadora, recordando o caso de uma participante que aguardava desde janeiro por uma oportunidade para se inscrever.
Natural de Lisboa, mas com fortes raízes familiares em Castelo Branco, Catarina encontrou no Bordado de Castelo Branco uma paixão que acabaria por mudar o rumo da sua vida profissional. Apesar da formação em engenharia e de ter exercido nessa área durante vários anos, nunca abandonou o interesse pelos trabalhos manuais, que a acompanham desde a infância.
Foi em 2014, ao aprender a técnica com uma tia albicastrense, que descobriu uma ligação mais profunda a esta arte tradicional. “Apaixonei-me pelos materiais, pela seda e pelo linho, e pela conjugação de ambos. Apaixonei-me pelos motivos aplicados, pela história inerente aos desenhos e ao próprio bordado. Pela sua estética, por vezes quase pueril, com os seus desenhos pueris.” O fascínio levou-a a aprofundar o estudo da técnica e, em 2019, a criar a Seda & Companhia, um projeto dedicado à criação de peças de moda e acessórios inspirados no Bordado de Castelo Branco.
A proposta passa por reinterpretar uma tradição secular numa linguagem contemporânea.
“As colchas de Castelo Branco são maravilhosas e é nelas que me inspiro, sem dúvida, sobretudo nas mais antigas, as chamadas indo-portuguesas. São essas que considero mais interessantes, especialmente as do século XVIII. No entanto, são objetos de outro tempo, e a ideia é de facto trazer o Bordado de Castelo branco para peças que falem a mesma linguagem que esta nova geração.”
O objetivo, acrescenta, é criar “pequenas peças de arte para vestir” e contribuir para a divulgação deste património de uma forma atual.
O trabalho desenvolvido pela criadora tem sido reconhecido a nível nacional. Através da Seda & Companhia, Catarina Tudella foi distinguida com o Prémio Nacional de Artesanato na categoria de Empreendedorismo, uma distinção que reconhece o contributo para a valorização e inovação do artesanato português. Mais recentemente, conquistou também o prémio de Melhor Peça de Artesanato Contemporâneo na Feira Internacional do Artesanato (FIA), em 2024 e novamente em 2025, reforçando a projeção do Bordado de Castelo Branco em contextos contemporâneos.
Foi também da vontade de partilhar conhecimento que nasceram os workshops. Catarina acredita que a melhor forma de compreender e valorizar uma arte é através da experiência direta. “O objetivo destes workshops não é formar bordadeiras. O que pretendo é proporcionar às pessoas um primeiro contacto com o bordado, permitindo-lhes perceber como é feito, compreender as suas técnicas e reconhecer o grau de dificuldade e dedicação que exige.”
As formações dividem-se atualmente em dois níveis. Num primeiro momento, os participantes aprendem os fundamentos da técnica e trabalham o característico Ponto de Castelo Branco. Em sessões mais avançadas, são introduzidos novos pontos e motivos decorativos, exigindo maior destreza e conhecimento técnico.
Entre os participantes encontram-se perfis muito diversificados. Em termos de idades, andam entre os 18 anos e os 81. Muitos chegam aos workshops motivados por ligações familiares à região de Castelo Branco. “Apesar de não viverem lá, têm avós, pais ou tios da região e sentem essa ligação. Também aparecem frequentemente mães e filhas a participar juntas”, observa.
Outros procuram simplesmente uma atividade manual capaz de contrariar o ritmo acelerado do quotidiano. Para Catarina, essa é uma das razões que explicam o aumento da procura. “Vivemos numa época em que tudo exige muito da nossa atenção. O trabalho manual proporciona algum descanso, porque obriga as pessoas a estarem focadas no momento presente e a desligarem-se das preocupações do dia a dia.”
Segundo a formadora, não são raros os casos de participantes que chegam por recomendação de profissionais de saúde. “Vivemos num tempo particularmente exigente do ponto de vista mental. E o trabalho manual proporciona-nos algum descanso, porque é um trabalho mecânico, de repetição e de rotina. As pessoas conseguem focar-se e são obrigadas a estar presentes naquele momento, no aqui e agora, concentradas naquilo que estão a fazer.
”, refere.
Mas o interesse crescente vai além do bem-estar individual. Catarina considera que existe atualmente uma redescoberta das artes tradicionais portuguesas e uma nova valorização de saberes que durante décadas foram desconsiderados. “Estes trabalhos estiveram durante muito tempo associados a tarefas consideradas menores, a trabalhos domésticos e, em muitos casos, a atividades tradicionalmente desempenhadas por mulheres. Houve um momento em que a sociedade procurou afastar-se dessa realidade e colocar este tipo de saberes de lado.”
Na sua perspetiva, a sobrevivência do artesanato depende precisamente da capacidade de adaptação aos tempos atuais. “A arte tem de ser vivida. Se o artesanato não for revitalizado e atualizado, corre o risco de se transformar apenas numa peça de museu e não é isso que se pretende”, defende.
Entre os vários elementos que distinguem o Bordado de Castelo Branco de outras tradições portuguesas, Catarina destaca a utilização do fio de seda, característica única entre os bordados tradicionais nacionais. “É o único bordado tradicional português executado com fio de seda”, explica. A isto junta-se o Ponto de Castelo Branco e a riqueza simbólica das composições, cujos elementos permitem construir narrativas e significados através do desenho.
Apesar da complexidade da técnica, Catarina garante que qualquer pessoa pode aprender. “Tive uma aluna nesta última sessão que nunca tinha pegado numa agulha e acabou por realizar, na minha opinião, o melhor trabalho da turma”, conta.
Paralelamente à atividade formativa, a artesã encontra-se a desenvolver novos projetos para ampliar a atuação da Seda & Companhia. Um dos objetivos passa pela entrada nas áreas da decoração e do design, explorando novas formas de apresentar o Bordado de Castelo Branco para além das tradicionais colchas e painéis decorativos. A aposta passa pela criação de objetos tridimensionais e peças de carácter mais experimental, capazes de integrar o bordado em contextos inesperados.
Esse caminho já começou a ganhar visibilidade este ano, com a apresentação de uma peça na edição de 2026 da Lisbon by Design, considerada uma das principais montras do design português e realizada no final de maio, em Lisboa.
Outro dos projetos em curso envolve a criação de uma unidade produtiva artesanal em Castelo Branco. A iniciativa pretende não só reforçar a ligação da marca ao território de origem desta tradição, mas também permitir a certificação do trabalho desenvolvido. Para Catarina Tudella, trata-se de um passo fundamental para a valorização do Bordado de Castelo Branco e para a confiança dos clientes. “A certificação representa um selo de autenticidade e um importante contributo para a dignificação desta arte”, sublinha.
O investimento necessário é significativo, sobretudo para uma pequena empresa artesanal. Ainda assim, a fundadora da Seda & Companhia considera que o projeto representa uma oportunidade de criar valor no concelho, reforçar a produção local e contribuir para a preservação e promoção de uma das mais emblemáticas expressões do património têxtil português.
Os workshops realizam-se regularmente ao longo do ano, com cerca de três a quatro edições por semestre. As inscrições podem ser efetuadas através do site da Retrosaria Rosa Pomar, que também divulga novas datas e permite a inscrição em listas de espera para futuras sessões.




