"Estou desejosa para voltar; fiz a minha vida

"Estou desejosa para voltar; fiz a minha vida

“Estou desejosa para voltar; fiz a minha vida, mas sempre com o objetivo de voltar” – Sara Silvestre – emigrante albicastrense no Luxemburgo

10 de Agosto. Três e meia da tarde. Sara Silvestre faz a manicure, no sítio do costume, pelas mãos de quem conhece.

Este é um dos rituais que esta emigrante albicastrense não dispensa, durante a estada em Portugal, no seu querido mês de agosto: “normalmente são três semanas, já fiquei quatro, quatro e meia; este ano, vamos ficar três”.

O primeiro ritual, no dia a seguir à chegada, é abastecer a dispensa de uma casa vazia, durante praticamente todo ano, onde só a água corre na torneira: “vamos logo fazer as compras a Castelo Branco, não temos nada em casa, depois organizamos a casa e começamos a receber família, a fazer os nossos almoços, os nossos jantares”.

Família que Sara Silvestre, de 51 anos, deixou para trás quando partiu de Freixial do Campo, com o marido e com o filho, na altura com 9 anos de idade, rumo ao Luxemburgo: “naquela altura, o meu marido tinha uma empresa, que decidiu fechar; eu tinha o meu emprego, ele é que não tinha e não era fácil, na área dele, arranjar emprego”.

Motivados pela profissão do marido, estofador de automóveis, e com retaguarda familiar no Luxemburgo, Sara cumpriu uma das mais importantes premissas do casamento: a promessa de apoio real, quando a vida muda de repente. Ele foi à frente, ela seguiu-o, cerca de um mês depois: “tínhamos lá família e estavam sempre a incentivar para a gente emigrar”.

Sara e o marido estão emigrados há cerca de 20 anos em Esch Sur Alzette, uma vila que foi morada única, ao longo destas duas décadas: “já mudei de casa, quando fomos, alugámos um apartamento, ao final de um ano, comprámos um apartamento, ao final de dez anos, comprámos a nossa casa”.

Mas recomeçar uma nova vida não foi fácil, principalmente para Sara: “quando cheguei ao Luxemburgo, foi um choque, porque pensava que seria mais fácil arranjar outras coisas e não, foi muito complicado até arranjar trabalho, o meu marido não, foi trabalhar para o que fazia cá e correu tudo muito bem”.

O trabalho cá (Sara trabalhava no Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco, primeiramente no Centro de Desenvolvimento Infantil e depois, como administrativa) tornou-se uma memória distante, que Sara revisitou vezes sem conta: “eu falava sempre com as minhas colegas, pensava no que fazíamos, no ambiente que tínhamos, eu sentia-me sozinha”.

Para além do trabalho, ou da dificuldade em encontrá-lo, o clima: “habituados aqui sempre a sol, mesmo que chova, um dia ou outro, depois faz sol; lá, durante meses, só chuva, só chuva, tudo escuro, a mim, fazia-me imensa confusão, as casas pintadas de cores escuras”.

Uma escuridão que Sara sentia também na alma das pessoas:”aqui, estou habituada a que as pessoas sejam dadas, que sejam simpáticas e lá, foi um bocado mais difícil”.

A vida seguiu e Sara encontrou novos rumos: trabalhou como cuidadora de uma criança luxemburguesa e num lar de idosos, instituição onde acabou por sofrer um grave acidente de trabalho que a deixou inapta para voltar ao ativo: “comecei a ter mais problemas de saúde, derivado também ao clima, em Portugal não sofro nem metade do que sofro lá”.

Mas foi lá que Sara foi fazendo a sua vida, um caminho que foi sendo percorrido, com um destino, como meta, bem traçado: voltar, definitivamente, ao lugar de onde partiu, com cerca de trinta anos de idade.

Há cerca de 20 anos que Sara volta sempre, à exceção do ano em que nasceu o segundo filho, à casa que construiu antes de sair, e onde só chegou a viver durante dois anos, antes de fazer as malas e partir.

O sentimento é sempre o mesmo, a cada retorno “forçado”: “sinto que deixo a minha casa, que deixo tudo o que me faz sentir bem, que tenho de voltar outra vez, fechar a porta é complicado para os dois”.

Faltam cerca de cinco anos para que Sara e o marido possam abrir esta porta, para não mais a fechar: “ao meu marido, faltam-lhe cerca de cinco anos para entrar na reforma e nós vimos embora, independentemente que os filhos fiquem, eu também fui e deixei a minha família, eles têm de fazer as suas vidas”.

Os pais, que há cerca de 20 anos a viram partir, aguardam o regresso definitivo desta filha ao lugar que a viu nascer: “de vez em quando vão lá, mas dizem sempre, vocês quando se puderem vir embora, venham, estão ansiosos que chegue o dia”.

Enquanto esse dia não chega, Sara organiza a vida para estar preparada quando ele chegar: “atualmente, estamos a vender a nossa casa e a comprar um apartamento, já a organizar as coisas para voltar, porque não vamos deixar uma casa para os nossos filhos depois ficarem a sustentar, é mais fácil sustentar um apartamento do que uma casa”.

Sara tem dificuldade em responder se tudo valeu a pena, mas não tem dúvidas quanto ao futuro que conseguiu proporcionar aos filhos: “têm mais saídas, em termos de escolas, de empregos, de tudo, foi por isso que nós o fizemos, sei que os deixo, mas já lhes preparámos a cama”.

“Estou desejosa para voltar; fiz a minha vida, mas sempre com o objetivo de voltar”.

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