𝗧𝗿𝗮𝘁𝗮𝗿 𝗮 𝗗𝗼𝗲𝗻𝗰̧𝗮 𝗢𝗻𝗰𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮 𝗽𝗼𝗿 𝗧𝘂
𝗠𝗮𝗿𝗰𝗼 𝗔𝗻𝘁𝗼́𝗻𝗶𝗼 𝗠𝗮𝘁𝗶𝗮𝘀 tem 60 anos.
Foi há cerca de 22 anos que uma doença oncológica, rara, entrou na sua vida, pela primeira vez.
Uma Policitémia Vera.
(Trata-se de uma doença tumoral da medula óssea, em que há uma excessiva produção de glóbulos vermelhos. Neste caso, também um aumento de plaquetas e de glóbulos brancos).
Marco nunca tinha ouvido falar de tal nome, nem conhecia ninguém com a mesma doença. Foi-lhe feita a seguinte analogia:
“Imagine uma garrafa de água de litro e meio, em que vai deitando para lá componentes, mas não dilui, cada vez vai ficando mais espesso”.
A única sintomatologia que teve (que, na altura, não reconheceu como tal), foi uma dificuldade em ver os sinais de trânsito, ao longe, enquanto conduzia.
Na altura, deram-lhe entre três a seis meses de vida, caso o corpo de Marco não reagisse à Flebotomia, que consiste na remoção de sangue. Começou por tirar sangue três vezes por semana.
Estávamos em 2002. Marco tinha 38 anos. A sua filha tinha 10 anos. A pergunta que, imediatamente, ecoou na sua cabeça, foi se veria a filha atingir a maioridade, os 18 anos. E, nesse momento, traçou o primeiro objetivo. Decidiu que sim.
E viu. E a tal ‘garrafa de água’ não rebentou.
A doença manteve-se estável e Marco passou a tirar sangue de três em três meses. Entretanto, encontrou um hematologista que lhe prescreveu uma medicação, na altura, inovadora no mercado português, que permitiu que os valores das plaquetas e dos glóbulos vermelhos se mantivessem estáveis.
Não dar valor à doença, no sentido, de não viver aprisionado a ela, foi sempre o lema de Marco. Nunca se considerou seu refém e nunca viveu dependente dela.
“Viver a vida. Seja no trabalho. Seja em casa. Seja com os filhos. Seja em férias”. E foi isso que sempre fez. Ela, a doença, nunca esteve ao comando. Foi sempre ele.
Em 2016, aquilo que parecia apenas uma simples picadela nas costas e que fazia sugerir uma cólica renal, acabou por se revelar em mais um tumor. Desta vez, no rim.
Resultado? Três dias depois estava em Coimbra a fazer exames e cinco a seis dias depois, estava-lhe a ser retirado o rim e a glândula suprarrenal.
Foi outra fase complicada, a que se seguiram meses de recuperação.
Mas, também no sangue, as coisas não estavam da cor dele, ou ‘cor-de-rosa’, como se costuma dizer.
Os valores voltaram a sofrer alterações e, há cerca de três anos, a doença agravou-se para uma Mielofibrose (uma doença tumoral da medula óssea, em que há progressiva fibrose e diminuição das células sanguíneas).
Nessa altura, Marco sentiu-se “a entrar no fim da corrida”. Desta vez, o prognóstico é de 10 anos de vida.
Cansado das doenças e do cansaço que provocam, decidiu deixar de andar “a 200 quilómetros/hora” e pensar em si e nos seus.
“Vemos o mundo a desabar, vivemos com a espada sempre em cima da cabeça. Se não houver outro fim, sei qual vai ser o meu fim”, afirma.
Com esta consciência acutilante, Marco prefere viver a segunda de duas opções: uma tortura permanente ou um andar para a frente, viver, com as metas bem definidas.
O seu grande objetivo é ver o neto fazer três anos (tem, atualmente, 21 meses) e levá-lo a ver um jogo de futebol ao Estádio de Alvalade.
“Até essa altura, tenho de me aguentar cá, ele é a minha fonte de energia”, confessa.
Não perca, brevemente, a entrevista em estúdio com Marco António Matias.
Vanessa Pires
