“Fui violada numa piscina pública até ter forças para o tirar de cima de mim”
Assinalou-se, a 7 de Março, o Dia de Luto Nacional em homenagem às vítimas de violência doméstica e às suas famílias.
Em 2024, a violência doméstica foi responsável pela morte de vinte e duas pessoas: dezanove mulheres e três homens. Os dados são da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e estão disponíveis no Portal da Violência Doméstica.
Maria, vamos chamar-lhe assim, não faz parte das estatísticas. É uma sobrevivente.
Conversou com a Beira Baixa TV e, com o objetivo de ajudar, nem que seja uma mulher, aceitou contar a sua história.
Este é o seu testemunho, na primeira pessoa.
“Tenho 41 anos e fui vítima de violência doméstica!
Sempre fui uma pessoa discreta, com um grupo de amigos alargado, que fiz todo o meu percurso académico, até terminar a licenciatura na área da saúde, sem perder um ano.
Conheci o agressor quando tinha 24 anos e ele 40. Uma diferença de idade que me seduziu, porque me poderia dar a estabilidade emocional que desejava (pensei eu), mas que chocou muitos dos que me rodeavam e que, assim, se afastaram. Dei por mim isolada, de tal forma que, apenas encontrava refúgio junto dele e da sua família.
No início do relacionamento, houve uns episódios esporádicos de explosões, mais ou menos agressivas, que vinham sempre seguidas de um pedido de desculpas, na forma de viagem ou de jantar mais requintado. Nessas fases, também a
família dele me imputava responsabilidades e fazia crer que ele precisava de mim para manter a sua estabilidade.
Os anos foram passando e a violência acabou por se reflectir a vários níveis: o meu dinheiro era controlado e apenas podia ser gasto em despesas de casa; os meus telefonemas eram controlados, desde os
números para onde ligava até ao tempo que duravam essas chamadas; todos os meus amigos se afastaram pelos comportamentos desadequados que ele demonstrava em frente deles; não me deixava ouvir música (que sempre
funcionou como escape e terapia para mim); acusava-me de ter relações amorosas com outras pessoas; sempre sob a pena de não controlar o comportamento (e logo viria novamente uma viagem ou um jantar para compensar).
Mais do que uma vez fui levada para zonas isoladas, com a ameaça de me matar sem que alguém me encontrasse. Fui violada numa piscina pública, até ter forças para o tirar de cima de mim!
E porque fiquei? Por medo do que poderia vir se eu saísse, por vergonha, por
dependência. Sempre afirmei, do alto da minha adolescência, cheia de convicções, que eu nunca passaria por tal situação. E aqui estava eu!
Passados seis anos de relação, engravidei! Sempre quis ser mãe e poderia concretizar o meu sonho. Apesar da gravidez me ter dado pouco que fazer, toda a situação
piorou. Já com uma barriga generosa e a precisar de tranquilidade à minha volta, fui encostada à parede, enquanto vigorosos murros eram atirados à parede, mesmo ao lado da minha cara. As consultas com a obstetra passaram a ser um tormento e as acusações de infidelidade e o questionar acerca da paternidade da criança passaram a ser constantes.
Quando dei à luz, passei a dormir no sofá porque o choro de bebé incomodava…
Poucos meses depois, ameaçou fazer desaparecer o bebé. E esse, foi o dia em que fui melhor mãe, porque foi quando decidi sair de casa!
Tal como eu temia, começaram as perseguições, as ameaças de morte, a mim e à minha família, perseguição às minhas amigas…
Seguiu-se a queixa na polícia. Depressa me apoiaram, sugeriram uma casa-abrigo e
trataram de todo o processo no Ministério
Público.
A partir desse dia, nunca mais me largaram. Acompanhavam-me ao trabalho, vigiavam a minha casa, apoiavam-me sempre que necessário. Também me encaminharam para a equipa de Apoio à Vítima, que foram imprescindíveis em todo o processo. Seguiram-se audiências em tribunal, pulseira eletrónica, botão de pânico e, por fim, detenção!
Todo este processo foi doloroso, deixou marcas para sempre e mudou-me, de forma
bastante profunda.
Muito mais haveria para relatar, mas recuso a manter-me e a viver no papel de vítima!
O dia mais importante foi quando decidi sair desta situação e lutar pela nossa paz e tranquilidade, o dia em que decidi que não podia continuar a viver com medo, controlada e ameaçada.
O dia em que decidi ser um exemplo para a minha criança!”
