“Daqui a dez, quinze anos, não há estofadores” – Rui Couchinho, meio século de vida a estofar
Quando cheguei, Rui Couchinho estava a terminar uma poltrona Berger, com cerca de quarenta anos. Andou `de volta dela` cerca de quinze horas para conseguir acabamentos de origem.
Rui tem sessenta e seis anos de idade. Meio século de vida, da sua vida, foi passado a estofar.
Uma profissão, a de estofador, que está, na opinião de Rui, “muito em risco”.
Em risco, não por ser considerada uma profissão de risco, mas porque corre o risco de desaparecer. Daqui a dez anos, quinze anos, Rui acredita que não haverá estofadores a quem recorrer. “Não há ninguém para aprender”, afirma este estofador, acrescentando não haver oferta de formação nesta área.
Para Rui, mais do que uma profissão, estofar é uma arte, artesanal, que deveria ser reconhecida como tal, mas que não o é.
Foi aos cerca de quinze anos que Rui se iniciou numa arte que, segundo o próprio, demora cerca de dez anos, “só a aprender”. Trabalhou em várias oficinas, “boas oficinas” e recorda, com saudade, aquela onde mais aprendeu, uma oficina em Benfica, Lisboa, e com quem mais aprendeu, o Sr. João: “era um senhor muito rígido, muito reto, ensinou-me muito”.
Foi o acaso da vida que, um dia, o fez entrar naquela oficina, e não se arrepende. Foi ali que se fez estofador.
Na sua oficina, Rui estofa de tudo um pouco: desde uma cadeira, a primeira peça em que trabalhou, como o banco de um automóvel.
Divide o seu negócio em mobiliário de casa, onde se incluem, sofás, cadeiras, cabeceiras, e ramo automóvel, com o arranjo dos bancos, tetos dos carros, todo o interior de um veículo.
Já renovou vários estabelecimentos comerciais albicastrenses: “Tudo o que é discotecas, bares, acho que fiz tudo aqui, na zona” e, até, Instituições Particulares de Solidariedade Social, como foi o caso da APPACDM, mas também um lar em Proença, ou o Instituto da Juventude: “Todas estas casas têm de dar condições às pessoas que lá habitam.Se não houver uma pessoa responsável pela sua manutenção, existe uma degradação maior, que vai influenciar a qualidade de vida dessas pessoas”.
O contacto com o cliente é o ponto de partida do seu trabalho, que é feito por agenda, a que se segue o orçamento. A ser aceite, Rui vai buscar a peça e, a partir daí, segue-se a primeira fase do processo: “a fase do desmanchar, de levar à raíz, porque o cliente paga para isso, em que retira-se tudo o que é velho e colocam-se materiais novos, fica praticamente só o esqueleto. Se houver a necessidade de uma colagem, ajustar as madeiras, isso também se faz”.
A segunda fase, a chamada “parte técnica” , é da responsabilidade de Rui: “Começam-se a cortar os tecidos, as napas, as peles, incluindo a costura de máquina” porque, na opinião de Rui, “um estofador completo sabe fazer rigorosamente tudo”.
Rui manuseia a mesma máquina de costura, industrial, há cerca de trinta anos, que diz “cozer absolutamente tudo, até os dedos”. O estofador mantém-se fiel à sua máquina de costura: “Agora, a mais moderna destas, já é toda eletrónica, é uma máquina caríssima, mas eu não a quero, eu prefiro esta, as outras trabalham um ano ou dois e depois estragam-se, é como os carros”.
Sobre a sua mesa, desce uma máquina de agrafar amarela, uma das que mais utiliza e que “não pode falhar”. O barulho é semelhante ao som do amolador.
Trabalhar em pele é o que dá mais prazer, mas também mais trabalho, a este estofador: “é muito mais artesanal, é uma coisa que temos de saber o que estamos a fazer, porque trabalhar em pele não é para qualquer estofador”. Sobre isto, Rui afirma que pode estar entre dois a três dias, só a terminar a costa de um sofá de pele Capitoné.
Durante cerca de trinta anos, Rui conciliou o trabalho de estofador com o de guarda-prisional, uma profissão que também considera subvalorizada.
Numa altura em que tinha a ânsia de mudar o rumo da sua vida, Rui candidatou-se a todas as forças de segurança e acabou por optar por guarda prisional: “uma profissão que eu abracei muito bem, gostei muito”, relembra. Depois da formação em Tires, Rui trabalhou em várias prisões, incluindo Monsanto, Covilhã e . Na primeira, relembra, que “havia lá à volta de mil homens”.
Rui chegou a temer pela sua vida, assistiu a motins, mas “sempre de cabeça erguida”. Momentos que, mais que tudo, lhe deram aprendizagens de vida: “eu lidei, desde o indivíduo mais analfabeto a deputados, por exemplo”.
Em , praticamente, não há associação de que Rui não tenha feito parte.
“A cidade é minha e, como tal, eu tinha de fazer parte da cidade”, afirma Rui, sobre os anos de vida associativa.
Lembra os cerca de quinze anos em que fez parte do Rancho da Associação Cultural e Recreativa, “As Palmeiras”. Lembra o folclore, as várias atividades da associação e os carnavais. “Fiz os carnavais, praticamente todos, nesta cidade, como figurante e não era a brincar, havia muita preparação, começávamos meses antes”.
Agora, os carnavais são outros e todos passados na oficina, onde deseja continuar a estofar até, um dia dizer: “Fecho isto, estou farto. Enquanto eu me sentir bem, continuo a trabalhar”.
