“A carne aqui é diferente. A menina vai, assa-a e desfaz-se na boca, tem um sabor diferente” – Luís Mateus, trabalha no Mercado Municipal há trinta e quatro anos
“As pessoas não costumam notar”, começa por dizer Luís, acerca da sua condição.
À primeira vista, não se vê a prótese, que `faz as vezes` do braço e mão direita, resultado de um acidente de trabalho, há vários anos atrás.
“Eu, primeiro, trabalhava nas obras, depois tive um acidente de trabalho e tentei arranjar um emprego na Função Pública”, explica Luís.
Na altura, há mais de trinta anos atrás, quando perdeu a sua, foi a Câmara Municipal de que lhe `deu a mão`.
Luís relembra o momento em que, pela primeira vez, pisou o chão do mercado: “era negro, o chão era escuro, era cimento escuro, depois levou esta alteração e ficou um Mercado mais bonito”.
Luís tem sessenta e nove anos de idade. É funcionário da Câmara Municipal de há cerca de trinta e quatro anos: “eu vim para o portão, antigamente, depois, depois havia o Mercado Abastecedor, tomava conta do estacionamento”, relembra sobre o seu percurso no Mercado Municipal, que começou como porteiro.
De Servente, para Auxiliar Administrativo e agora, Assistente Operacional. “Eu já fiz muita coisa, atualmente, estou a olhar por isto, mais a minha colega”, refere Luís.
É do tempo em que não havia hipermercados na cidade de e recorda-se da afluência ao Mercado: “naquela altura, havia muito mais gente a vender”.
Relembra o rebuliço da parte da manhã: “Paravam ali, aqui, neste sítio era um café, durante uma hora, eram três pessoas a aviar e não davam conta do recado”.
Ainda assim, Luís aponta aquelas que, na sua opinião, são as diferenças entre os produtos do Mercado e os outros: “a carne aqui, é diferente. Se comprar carne aqui, nos talhos da Praça e comprar no hipermercado, é diferente. Aqui, na Praça, a menina vai, assa-a e desfaz-se na boca, tem um sabor diferente. A carne que a menina compra nos hipermercados, assa-a e aquilo parece que é plástico a esticar”.
Luís conhece todos os comerciantes pelo nome, e muitos clientes, não fosse dos primeiros rostos para quem chega ao Mercado Municipal de , um espaço que acompanha gerações: “pessoas que já cá passaram os avós e ainda cá vem”.
Com Zulmira Barroso, divide o trabalho no balcão de entrada do Mercado: “é muito acessível”, diz ela, que aqui trabalha há trinta e oito anos, acerca dele. Luís lembra que, na altura em que entrou, havia um encarregado e mais de vinte pessoas a trabalhar nestas funções: “agora estamos os dois e mais duas pessoas na limpeza”.
“No geral, toda a gente me guarda respeito, não tenho mal a dizer de ninguém. Gosto de lidar com as pessoas e tento fazer o melhor que eu puder para elas, porque isto é público e eu não estou aqui para prejudicar as pessoas, estou aqui para ajudar as pessoas, o melhor que eu posso”, afirma Luís, que aqui vai continuar, até cumprir uma promessa que fez: “eu prometi que estava cá até aos setenta anos”.
A um ano de cumprir a promessa, Luís Mateus tem a certeza de duas coisas: “vou sentir saudades e hei–de cá passar algumas vezes”.
