“Dá gosto devolvê-las, novamente, à estrada” – Alexandre Pires sobre as Pasteleiras
“Andar a pastelar, ou seja, andar devagar, andar a fazer tempo”. Alexandre Pires, de 38 anos, começa por explicar a origem do nome das bicicletas que restaura, as Pasteleiras, acrescentando que “são bicicletas pesadas, robustas, confortáveis, utilizadas num sem número de profissões que marcaram uma era”.
Quem utilizava uma Pasteleira para se deslocar para o trabalho era o avô de Alexandre Pires, e foi com essa bicicleta que tudo começou.
“O meu avô deu-me a bicicleta dele, ele tinha uma bicicleta Pasteleira que era com que ia trabalhar para a CP. Depois, a bicicleta ainda esteve uns anos no estado em que estava, e depois comecei a desmanchar e a recuperar, porque eu sempre gostei muito de recuperar coisas antigas”.
Dar uma nova vida a estas bicicletas antigas foi-se tornando num hobby, alimentado durante a Pandemia da Covid-19.
“A Pandemia trouxe-nos coisas más, mas também nos trouxe coisas boas, trouxe-nos algum tempo para nós”, explica Alexandre Pires, que trabalha com os pais numa exploração de ovinos de leite. Enquanto produtores de leite para o queijo da região, “o tempo, às vezes, é curto”, confessa.
Alexandre foi adquirindo mais alguns modelos, de familiares e amigos, comprou mais “uma ou outra em feiras de velharias e antiguidades”. Neste momento, a sua coleção tem cerca de uma dezena de Pasteleiras, todas recuperadas “ao original”, que guarda numa garagem, num anexo.
Quando o tempo o permite, arranja as Pasteleiras: “Isso é só quando tenho tempo, quando vou adquirindo alguma, aqui e ali. O que faço é: tenho uma página e depois há pessoas que, às vezes, me perguntam coisas, como é que se faz isto, como é que se faz aquilo e eu vou aprendendo, à descoberta, e vou também ensinando, partilhando algumas coisas porque, isto não há muita gente que faz e há pessoas que têm bicicletas e gostavam de as recuperar, então eu digo-lhes o que é que fiz às minhas e depois fazem, à maneira deles. Eu não arranjo bicicletas para ninguém, eu simplesmente digo como é que fiz nas minhas e sugiro. Eu faço isso nas minhas”.
Sobre o processo, Alexandre conta que “é sempre difícil porque, às vezes, é preciso substituir alguma peça e já não é fácil de encontrar”.
Dependendo do tempo que tem disponível, Alexandre Pires pode estar quatro, cinco horas de volta de uma Pasteleira.
“É preciso desmontar a bicicleta toda, é preciso fazer o tratamento do quadro para pintura, é preciso fazer isso tudo e isso tudo leva tempo, os materiais também têm o seu tempo de secagem e assim”, explica.
Recuperar uma bicicleta antiga já não tem grande ciência para Alexandre Pires, que explica que já o faz de forma sequencial.
“Primeiro, tem de se desmontar a bicicleta toda, ver quais são as peças que se conseguem aproveitar, muitas vezes, descobrir qual era a cor dela original, por exemplo, para ficar tudo como pertence”.
Um trabalho que envolve, muitas vezes, um trabalho de pesquisa prévio.
“Sim, eu estou sempre a outras pessoas que publicam porque, depois, há páginas de Facebook que mostram alguns trabalhos e eu gosto sempre de ver o trabalho das outras pessoas, e ver também qual era a cor, o ano, o modelo, na altura”.
Sobre o que lhe dá mais gosto e prazer em recuperar Pasteleiras, Alexandre Pires não hesita na resposta: “É devolver ao estado original, as bicicletas, porque há modelos que, para a época, já eram muito avançados e dá gosto devolvê-las, novamente, à estrada”.
E se, não há amor como o primeiro, o mesmo ditado popular se aplica no restauro das Pasteleiras. O trabalho que mais gosto lhe deu foi o primeiro.
“Foi restaurar a bicicleta do meu avô, quase uma herança, visto que ele já não é vivo. Como foi a primeira, foi tudo uma descoberta”.
Sobre as memórias que lhe vieram à cabeça enquanto restaurava a bicicleta dada pelo seu avô, Alexandre realça outro aspeto: “Mais do que a memória, foi o sentido de responsabilidade, porque, segundo ele dizia e as filhas dele diziam, a minha mãe, nem elas tiveram direito a andar na bicicleta dele, por isso, a bicicleta, antigamente, era uma coisa muito sagrada”.
Alexandre Pires já perdeu a conta aos conselhos e sugestões que deu e que continua a dar.
“Cada vez há mais passeios, felizmente a bicicleta voltou a ser atração, a cativar novos e mais idosos, outras gerações”.
Sobre as dúvidas mais frequentes, Alexandre Pires conta que se relacionam com a pintura, “que é o mais difícil de fazer”, arranjar, às vezes, autocolantes, “que não é fácil” e as peças cromadas, como é que se faz um polimento, visto que a cromagem é um processo que fica caro e, às vezes, basta limpar com palha de aço e alguns produtos de limpeza de cromagem”.
Sobre aquela Pasteleira que ainda gostava que lhe passasse pelas mãos, Alexandre não tem dúvidas: “qualquer pessoa que gosta de bicicletas antigas, gostava de ter uma bicicleta chamada Phillips, que é o modelo inglês, são as primeiras, foi daí que nasceram as nacionais”.
A Phillips, ainda faz parte da coleção de Alexandre Pires, mas tem uma Harley (que é um dos modelos ingleses), que conseguiu adquirir no estado original, não foi preciso fazer nenhuma alteração.
Todas as bicicletas da coleção de Alexandre Pires participam nos já famosos Passeios de Pasteleiras e todas saem, pelo menos uma vez por semana, para “irem dar uma volta”.
