Rosária Fernandes é a mais nova de quatro irmãos.
O número 4 da Rua da Patã, em Casal da Serra, na Freguesia de São Vicente da Beira, foi a sua casa até aos cerca de quinze anos de idade, antes de ir para a cidade grande, Lisboa: “uma casa pobre, mas habitável, era a casa dela”.
Rosária refere-se a Maria Alice, a sua mãe, de 85 anos, que ali vivia, na casa que o fogo agora levou, há mais de quarenta anos.
A casa que não tinha divisões e que o fogo deixou sem chão: “Era uma casa aberta, ampla, com uma cozinha, um quarto, uma sala. A gente fazia o melhor possível”.
Ali, Rosária guarda memórias de uma vida: “Memórias dos serões, do meu avô, quando era vivo, memórias de toda a gente que vivia ali na altura, era um bairro em que toda a gente se conhecia e se ajudavam uns aos outros. Memória de ser miúda e andar nos campos a apanhar azeitona e batatas, lá com os tios, todas essas memórias do campo que aqui não existem”.
Rosária recorda que a casa, agora reduzida à pedra, que ficou, e a cinzas, foi sendo construída aos poucos, “conforme se podia”.
Rosária lembra que o pesadelo começou na segunda-feira, dia 18 de agosto: “Quando vi as notícias dos fogos lá na zona, comecei a ficar nervosa, tinha um aperto aqui, no coração, que me dizia que qualquer coisa, não ia correr bem. Tinha uma sensação estranha. Pensei, o fogo anda ali na zona, decerto vai chegar lá, porque já tínhamos tido outras experiências, de outros anos anteriores, e comecei a ligar para a minha irmã e ninguém me atendia, nem a minha mãe, nem a minha irmã, ninguém”.
A fazer jus ao ditado popular de que “as más notícias chegam depressa”, Rosária ficou mais tranquila com a ausência de telefonemas: “Se tivesse acontecido alguma coisa, também já me tinham ligado”.
Foi no dia seguinte, terça-feira, dia 19 de agosto, que conseguiu falar com a irmã, Maria Inês, a quem perguntou, de imediato, onde estava a mãe: “Tem calma, a mãe está comigo”, disse-lhe Maria Inês, acrescentando que, nessa noite, já não tinha deixado a mãe ir dormir a casa, à conta do intenso fumo que se fazia sentir e garantindo que, se a situação se mantivesse, continuaria em sua casa, em Louriçal do Campo.
Apesar da família se preparar para o pior, Rosário ainda esperava o melhor.
Nessa noite, terça-feira à noite, Maria Alice ficou em casa da filha. Foi nessa noite que a sua ardeu.
Na quarta-feira, 20 de Agosto, Rosária acordou com o telefonema da irmã, Inês: “Mana, eu vou pôr a mãe ao Centro e vou lá acima ver como é que estão as coisas, porque há aqui alguém que me está a dizer que ardeu uma casa lá em cima, de uma senhora que está no Centro. Temo não ter boas notícias, mas pode ser que me engane, vou ver”.
O telefonema da confirmação demorou apenas alguns minutos: “Mana, não tenho boas notícias para te dar, o que nós temíamos, aconteceu. Ardeu tudo, não se aproveita nada”.
Nesse dia, Maria Alice ainda dormiu, sem saber que já não tinha a sua casa, mas, de certa forma, já o pressentindo: “Passou a noite levantada, ia à janela, dizia ai meu deus, está tanto fumo, e nós vamos morrer todos, é desta que a minha casa vai arder, não dormiu, nem deixou dormir. Ela, no fundo, também tinha o pressentimento”.
Foi no Centro de Dia e Social de São Bento de Louriçal do Campo, que a notícia lhe foi dada, para prevenir alguma reação que necessitasse de assistência médica: “Ela ficou aflita, ficou desesperada, disse não pode ser, não é verdade”.
“Foi-se a casa, mas ficaste tu”, disse-lhe Maria Inês. Ali, Maria Alice não tinha a real noção do que tinha acontecido e de tudo o que o fogo lhe lavara. Ainda perguntava pelo seu frigorífico, pela sua televisão, pelas coisas que foi construindo durante uma vida.
“Mãe, não está lá nada, ardeu tudo, caiu tudo para a loja, para baio, nem sequer tem chão a casa”, disseram-lhe.
Maria Alice precisava ver para crer e foi na quinta-feira, que a levaram a ver com os olhos aquilo que a sua cabeça e coração já sabiam: “Foi pior o choque quando lá chegou, porque ela não tinha noção de como estava aquilo. Ela começou aos gritos, a dizer a minha casa, as minhas coisinhas”.
Mas tudo as chamas tinham levado. Inclusive a Nossa Senhora e o Menino Jesus, a quem Maria Alice tanto rezava.
Sobre a mãe, Rosária afirma que “foi uma mulher que sofreu muito na vida. Ela e os irmãos tiveram sempre uma vida muito difícil, porque eram pessoas pobres. O meu avô era moleiro, tinha uma azenha, ia buscar a farinha à casa das pessoas para moer para fazer o pão e o milho. Mais tarde, deixaram de ter a azenha e compraram aquela casa”.
“Foi sempre uma vida de trabalho. A minha mãe depois casou, teve os filhos, o meu pai era alcoólico, tratava-a mal e ela sempre teve uma vida muito difícil”.
Neste momento, Maria Alice está mais conformada. O diploma que prevê ajudas já foi publicado, e a família tem o desejo de reconstruir a casa.
