Flávio Torres leva a Beira Baixa ao The Voice Portugal

Flávio Torres leva a Beira Baixa ao The Voice Portugal

Flávio Torres, de 46 anos, nasceu na Covilhã e viveu praticamente toda a sua vida na vila do Teixoso. Descreve-se como um bom amigo, pai de dois filhos e um amigo dedicado. Apaixonado pela música desde cedo, o cantor conversou com a Beira Baixa TV após a sua Prova Cega no The Voice Portugal, transmitida na noite deste domingo, 9 de novembro, numa conversa em que partilhou um pouco da sua história, das influências musicais que o marcaram e da experiência vivida no palco do programa.

BBTV – Flávio, a música entrou cedo na sua vida, não foi?
FT – Esta história da música nasceu em casa, porque o ambiente familiar era propício a isso. O meu pai era músico e, desde pequenino, ouvia-se muita música em casa — muitos discos, muitas cassetes. Os primeiros passos foram dados precisamente com o meu pai a ensinar-me a tocar guitarra. Depois quis aprender outros instrumentos, tive aulas de piano e, ainda muito novo, os melhores professores, a seguir ao meu pai, foram os nossos ídolos da altura. Punha as cassetes a tocar e tentava acompanhar com a guitarra e com a voz.

BBTV – Quais eram os seus ídolos nessa altura?
FT – Nos finais dos anos 80 e nos anos 90, as bandas que eu ouvia e que me influenciaram bastante andavam todas na onda do rock, do metal, inclusive coisas mais pop e eletrónicas. Posso aqui citar algumas, como os Metallica, Nirvana… Depois entrou o blues e o jazz, como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Gary Moore, e também Pink Floyd. Foram nomes importantes para depois conhecer outros artistas.

BBTV – E foi nos bares que começou a sua vida como artista?
FT – Foi. Foi onde aprendi a lidar com o público — os primeiros palcos de cafés e bares. Cedo senti a necessidade de tentar construir as minhas canções, de escrever, de compor. Foi essa curiosidade que me levou a construir a minha carreira de músicas originais até aos dias de hoje, que já vai no quarto disco, “Cosmo Pop”, lançado este ano.

BBTV – E as influências portuguesas?
FT – Também nessa altura da pré-adolescência ouvia muita música portuguesa. Sou muito influenciado pelo Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Jorge Palma, José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias. Escrevo e componho em português, mas gosto de trazer algo contemporâneo, com elementos eletrónicos. Mas o Zeca Afonso, o Sérgio Godinho e o José Mário Branco, Portishead e Massive Attack, com o rock dos Nirvana, Metallica, Queens of the Stone Age — toda esta mescla faz criar o meu universo.

BBTV – Como descreve a sua música atualmentel?
FT – Tento misturar um bocadinho de tudo nos meus discos. E este último trabalho, “Cosmo Pop”, é um disco que aborda várias linguagens musicais. Tem rock, blues, coisas mais ambientais e eletrónicas, mas todas elas estão interligadas. Nos primeiros discos baseava-me muito mais no folk, no swing e no jazz. Mas gosto de tantas coisas que, neste disco, optei por trazer várias influências e linguagens musicais. Não gosto de estar apenas limitado ou rotulado a um ou outro estilo.

BBTV – Além da carreira a solo, o Flávio também tem colaborado com grandes artistas. Como têm surgido essas parcerias?
FT – O mercado é pequeno e vamos partilhando palcos, histórias e experiências. As colaborações acabam por surgir de forma natural. Tento sempre convidar artistas com quem me cruzo e me identifico e que sinto que possam acrescentar algo às canções. Neste último disco, por exemplo, colaboraram o José Cid, o João Cabrita e a cantora brasileira Alex Liberally, com quem gravei “Samfado”, um tema que mistura samba e fado com um caráter mais blues e contemporâneo.
Aprende-se sempre — a cantar melhor, a compor de outra forma, outras técnicas de gravação, de composição…. Mas, acima de tudo, aprendemos muito sobre a vida e sobre sermos mais sinceros no que transmitimos. Acho que, acima de tudo, aprendemos a ser melhores pessoas.

BBTV – Depois de tantos anos de carreira, como surgiu a ideia de participar no The Voice? Foi algo planeado ou mais um impulso?
FT – Eu tento acompanhar estes programas de talentos, gosto de perceber o talento que há em Portugal — que é muito. Há uns anos pensei: “Olha, seria interessante eu participar numa experiência destas.” Ficou sempre na cabeça, mas nunca avancei. Talvez houvesse um certo medo ou falta de coragem de me expor assim a um júri. Com o trabalho todo feito, às vezes há esta coisa de “Epá, eu já faço coisas e agora vou-me expor numa situação destas”, mas pensei o contrário: “Por que não?”. Além de ser um desafio interessante — e é incrível tudo o que está a acontecer —, é também uma excelente forma de dar a conhecer o meu trabalho ao público. O desafio foi perder esse medo de ser julgado ou de não passar (o que não tem sentido nenhum, porque chegar até aqui já é uma prova de que o talento e o valor da pessoa estão lá), abraçar a falta de coragem e ir em frente.

BBTV – É o seu primeiro concurso de talentos?
FT – Sim, nunca tinha participado em mais nada e parece-me que, depois deste processo todo, vou ficar por aqui. Encaro esta experiência como um renascimento, no sentido de também ser uma forma de me automotivar a continuar e a renovar, tendo em conta o mercado muito difícil da música.

BBTV – Depois chegou, então, o grande dia da Prova Cega. Como é que foi subir àquele palco, sabendo que estava a ser ouvido por tanta gente e por mentores que, mesmo de costas voltadas, estavam muito atentos àquilo que o Flávio estava a fazer?
FT – Confesso que foi difícil. Eu estava bastante nervoso, mas também foi apenas naqueles segundos iniciais da contagem decrescente, antes de entrarmos na porta que vai dar ao palco. Quando chegou o “5-4-3-2-1”, o que eu pensei foi: “Vou respirar fundo, eu sei o que vou fazer e vamos embora.” E aquele momento trouxe-me alguma tranquilidade. Estou habituado a pisar outros palcos, mas confesso que houve ali um nervosismo complicado. No entanto, correu bem, foi genial e adorei a experiência.

BBTV – Porquê a música “Lembra-me um sonho lindo”, do Fausto Bordalo Dias?
FT – É uma música que eu normalmente já toco nos meus espetáculos, numa versão minha. Não é uma música muito conhecida — nunca fui muito de cantar coisas que estão na moda — e achei que talvez uma música como esta pudesse ter impacto. É um dos meus autores favoritos da música portuguesa, uma música que eu adoro, e fiz uma versão específica para o The Voice, para também prestar uma homenagem ao Fausto Bordalo Dias, que nos deixou há relativamente pouco tempo. Eu sei que não é uma música a que as pessoas estejam acostumadas a ouvir nas rádios ou que seja algo mais comercial, inclusive para os mentores, mas a minha decisão foi levar algo diferente, e o que acontecesse, aconteceria.

BBTV – Já havia algum jurado que tivesse escolhido de antemão, antes de saber se — e quem — viraria a cadeira?
FT – Antes de todo o processo de castings, eu fui pensando nisso, comentávamos aqui em casa e, pela afinidade musical e pela proximidade de idades, eu já tinha a Sónia Tavares como target. Se acontecesse virarem cadeiras, gostava que a Sónia Tavares virasse e talvez fosse a minha escolhida. Eu respeito todos os que lá estão — são todos excelentes músicos — e, se o Fernando Daniel tivesse virado, também poderia ser um desafio interessante, porque é uma abordagem diferente da minha e eu gosto de desafios. Eu fui um dos últimos a fazer a Prova Cega e já poucos jurados tinham lugares disponíveis para as suas equipas. Confesso que estava a pensar que não ia dar em nada, mas ia com o pensamento: “Vamos com força e ver o que vai acontecer.” Entretanto, a primeira cadeira a virar foi a da Sónia Tavares e fiquei, de imediato, feliz por isso — ainda para mais naquela fase —, o que me encheu ainda mais de orgulho.

BBTV – Qual foi a reação quando a Sónia Tavares carregou no botão e percebeu que tinha conquistado um lugar no The Voice?
FT – Eu acho que não tive qualquer reação. Estava tão focado em não me esquecer da letra, tocar os acordes certinhos e fazer mais alguma coisa ali pelo meio, que olhei, vi que a cadeira da Sónia tinha virado e senti-me como se estivesse num palco normalíssimo. Olhei para o público e continuei a fazer o meu melhor até que a música terminasse. Acho que não exprimi a enorme felicidade que estava a sentir por dentro e que as pessoas talvez quisessem ver.

BBTV – Quais são as expectativas para o resto do programa e o que é que espera levar dele?
FT – As expectativas são boas, estou bastante confiante, porque sei que levo algo diferenciador ao programa. Mas, aconteça o que acontecer no resto do programa, eu sei que o meu objetivo — que era arranjar motivação para continuar — já está concluído com esta Prova Cega, e já ganhei muito por ter dado este passo.

BBTV – Sente que esta experiência vai mudar alguma coisa em si e no músico que é?
FT – Essencialmente, espero que o público certo me encontre para que eu também vá ao encontro deles, para fazer espetáculos e partilharmos coisas bonitas em palco

Imagens: RTP

VER NO FACEBOOK