Ourives albicastrense cria peças

Ourives albicastrense cria peças

Cravos – Bordados da minha terra em prata

“O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos”, falava assim o poeta.
Mas, aqui a poeta é de carne e osso e sempre acreditou, num sonho belo, de fazer nascer um cravo num ‘jardim’. O Cravo floresce e tem assinatura albicastrense.

Nathalie Valente é filha de emigrantes, e cumpre a história de muitos portugueses que, como ela, nasceram em França, onde os pais estavam, para ‘ganhar a vida’. O pai, era filho de ourives.
“O meuavô paterno era ourives ambulante, oriundo deFebres, Cantanhede”, conta, Nathalie, recordando que o avô nunca teve loja física, “vendia em feiras e na sua própria casa, em Fonte Longa, localidade da freguesia de Santo André das Tojeiras, no concelho de Castelo Branco.E foi aí que ele casou e ficou até falecer.”

Em 1981, os pais regressam definitivamente, para Portugal e fixam-se em Castelo Branco. E é nesta cidade que abrem a primeira ourivesaria, naRua Dr. Jaime Lopes Dias, na Quinta do Amieiro: a Ourivesaria SAFRENA.Nathalie Valente queria ser professora, e repetia-o vezes sem conta: “quando for grande quero ser professora”. Tal e qual como a avó paterna que era professora primária. E ela de pequena adorava sentar-se na sua secretária a fazer fichas e redações, com nomes fictícios.
Depois, corrigia-os como se fosse a professora. Ainda hoje tem uma adoração pela Professora Primária, Celeste Pires“Não fui para professora primária, mas fui para Educadora Social”, frisa. Sempre tive o ‘bichinho’ pelo desenho e pelos trabalhos manuais.E, também, desenvolvi um grande carinho“por pessoas especiais. Trabalhei alguns anos na APPACDM de Castelo Branco e consegui conciliar durante alguns anos as duas profissões”.
Mas, em2001 abriu a Ourivesaria Quilate, na Avenida Nuno Álvares e em 2007 deixou a APPACDM, para se dedicar de corpo e alma à ourivesaria.
E como é que Nathalie Valente descobre a ourivesaria? Bem, acompanhámos o revelar da sua vida em França, do regresso a Portugal e percebemos que descobriu a ourivesaria com os pais e avô.
Quando em 1981, vem para Castelo Branco, onde os pais abriram a primeira ourivesaria, tinha apenas sete anos. Vinte anos depois Nathalie Valente abre a Ourivesaria Quilate, na Avenida Nuno Álvares.Como já era um negócio de família, foi fácil dar-lhe continuidade. Para além disso, com o vasto leque de clientes dos pais, entre amigos, colegas de trabalho e novos clientes que vai fazendo e criando, tudo vai acontecendo de forma natural e simples. “É engraçado que já atendo netos dos clientes dos meus pais, que eram clientes do meu avô. É giro, porque o cliente de ourivesaria é assíduo, torna-sefamília, cria-se um laço de amizade e confiança. É gratificante, sobretudo para mim!”, continua.
Sempre acreditou no seu projeto? “Claro que sim! Se não acreditarmos em nós mesmos, quem vai acreditar?”, frisa.
E é neste caminho de sucesso que começa a desenhar peças em parceria com Criadores de Jóias como, Jorge do Vale, Styliano e Rocha Carvão.Já há uns anos que trabalha com a Losangos. “Eu e o André (criador de jóias da Losangos) entendemo-nos lindamente. Fazemos uma dupla gira! A dupla Maravilha, como ele diz!Euestou a desenhar e ele já está a fazer”, conta e revela, um pouco do seu mundo.
“Trabalho com ouro e prata. Mas, principalmente prata. Eu considero-me mesmo prateira!
Na coleção dos Cravos, que motivou esta conversa,Nathalie Valente diz que foi criado um molde. “Desenhei um Cravo que foi feito em prata tal e qual como o desenhei e idealizei. A partir dessa base, fizemos um molde em cera, para podermos fazer mais cravos iguais em prata”.
E porquê o Cravo? “Porque o cravo era o mais óbvio, o mais fácil de fazer e identificar com o bordado de Castelo Branco”, explica
E continuaa contar como tudo se passou. “Criámos o molde do Cravo em três tamanhos. Fizemos trêspares de brincos, com três modelos diferentes e de dois tamanhos diferentes”, refere, acrescentando que “criámos alfinetes também de dois modelos diferentes e, ainda, dois modelos de anéis” acrescenta. E continua a referir o processo desenvolvido: “fizemos fechos para colares de pedras e pérolas de tamanhos e feitios diferentes. Apesar de termos feito um molde, todos os cravos depois de injetados, são limados, e revenidos manualmente, ou seja, são peças artesanais”, vinca.“Os colares rígidos e as escravas são peças que se tornam únicas, uma vez que são feitos artesanalmente e ficam diferentes uns dos outros. E a ideia também é essa… haver peças únicas!” destaca Nathalie Valente.
A ourives nunca fez qualquer formação. “Sempre tive jeito para desenho, trabalhos manuais…e sim, isto é inato, sim”!
Nathalie Valente também desenhapeças para clientes que lhe pedem, “peças que idealizam, peças para eventos, para dias especiais, noivas, mães e madrinhas de casamento…”, acrescentando que se fazem alterações em peças queos clientestêm e que já não usam, “tornando-asassim peças únicas e distintas”.
A ourives albicastrense tem tido um feedback muito positivoà coleção “Cravos – Bordados da minha terra” admitindo que “não estava à espera disto. Estou muito feliz. Passei de ourives a florista. (risos)”.
A proprietária da Quilate mostra-se surpreendida com a aceitação e interesse na coleção, “as pessoas vêm à loja com o propósito de ver a coleção e comprar. Tenho tido muitas encomendas, mesmo para fora de Castelo Branco, mesmo sem terem raízes aqui, só porque gostaram do Cravo em si. Estou muito contente”.
Efetivamente, é possível ver e sentir o entusiasmo e o brilho nos olhos de Nathalie. E aaventura não se fica por aqui, não é verdade? “Sim, já tenho mais duas peças desenhadas, que vão ser feitas agora em Setembro e já tenho umas outras em mente. E os Cravos vão florindo no jardim”.
Uma ourives albicastrense que, sem esperar ‘virou florista’ de cravos.O jardim floresce e a ‘jardineira’ já tem outras sementes para cultivar. Prova de que: “Se podemos sonhar, também podemos tornar os nossos sonhos realidade”.

Cristina Mota Saraiva




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