“Por duas vezes, quase morri. Ou retirava o útero ou acabava por morrer” – Maria (nome fictício)
Entrou no HAL – Hospital Amato Lusitano, no dia 15 de Março para dar à luz.
Saiu no dia 3 de Abril. Sem útero.
Depois de um primeiro parto em plena Pandemia da Covid-19, Maria, vamos chamar-lhe assim, idealizava um segundo parto diferente: “sonhava o pai poder estar mais tempo com ela, o primeiro dia com a bebé e com uma filha mais velha, assistir ao momento em que se conhecessem, mas não tive direito a isso”.
Maria tem a fotografia do momento em que as irmãs se viram pela primeira vez, mas presente, só esteve de alma, não de corpo: “eu não soube o que foi, tenho a fotografia, mas eu não vi como é que elas se conheceram, como foi a reação da minha filha mais velha”.
Maria também não viu, ou deu, o primeiro banho à segunda filha, ou experienciou aqueles primeiros dias em que a família está numa espécie de “bolha”, aquando da chegada de um bebé: “gostava de ter vindo para casa, todos, que tivéssemos estado aqueles primeiros dias juntos, tranquilos”.
Tranquilidade foi o oposto do que viveu no seu pós-parto, depois de uma segunda gravidez muito desejada e “encomendada” pela filha mais velha, de quatro anos, que “já tinha pedido uma irmã”.
Foi no dia 15 de março de 2025, um sábado de manhã, que Maria deu entrada no HAL – Hospital Amato Lusitano para dar à luz a segunda filha, unidade que integra a ULSCB – Unidade Local de Saúde de Castelo Branco, onde Maria passou a ser seguida, nas últimas semanas de gestação, para a realização semanal do exame CTG.
Saiu de lá no dia 03 de abril. Mais de 15 dias depois.
“Naquele dia, a maternidade estava cheia, eram às três, de cada vez, em cada quarto”, explica Maria, que recorda ter reencontrado colegas do curso de amamentação.
Com uma gestação a ultrapassar as quarenta semanas e sem contrações ou sintomas, não obstante as caminhadas, o parto teve de ser induzido. As contrações chegariam depois de duas tomas de ocitocina.
Maria relembra o momento em que foi levada para uma das salas de partos: “veio a enfermeira parteira e uma enfermeira estagiária e a enfermeira parteira perguntou-me se eu não me importava que fosse a enfermeira estagiária a fazer o parto, porque ela precisava de quarenta partos para ficar com a especialidade. Eu disse-lhe que não havia problema nenhum, porque estava acompanhada de uma enfermeira parteira com muitos anos de experiência”. Maria refere-se à especialidade de Enfermeiro especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia, vulgarmente designada por enfermeira parteira.
O parto foi normal, com recurso a epidural: “o parto correu bem, achei muito mais fácil do que da primeira, foi muito mais rápido”, relembra Maria.
Mas também as dificuldades foram céleres a chegar, como relata Maria: “depois da minha filha nascer, pediram-me para continuar a fazer força porque a placenta não saiu. E eu, na ingenuidade, na desinformação, porque o outro parto tinha corrido bem, continuei a fazer força, visto que a placenta não tinha saído e continuavam a pedir-me para fazer força. Entretanto, tive uma enfermeira a carregar-me na barriga para ver se a placenta saia. Como não saiu, veio um dos médicos para me calcar na barriga e, entretanto, senti qualquer coisa, a placenta saiu, ou puxaram-na, como ainda estava anestesiada, não percebi. Depois, estiveram a coser-me e chamaram o médico. Ele sentou-se, observou-me, e perguntou à enfermeira estagiária se ela tinha colocado compressas, e ela disse que não. E ele, aos gritos, perguntou-lhe novamente se ele tinha ou não colocado compressas e ela disse que não, que tinha passado umas compressas só para limpar, ao que ele respondeu que isso nunca se fazia, porque assim não se percebia se a pessoa estava ou não a sangrar”.
Foi ali que Maria foi submetida a uma cirurgia denominada por “traquelorrafia”, ou seja, a sutura cirúrgica do colo do útero, rasgado durante o parto.
Aquelas palavras, ou melhor, aqueles gritos, são a última coisa que Maria recorda, antes de ser transportada por um corredor fora e de ver luzes, luzes que Maria associou imediatamente às que viu quando, anos antes, tinha feito uma cirurgia ao joelho.
E fez-se luz, antes do “apagão”: “vou para o bloco operatório”, recorda-se de ter pensado. Naquela altura, só não percebia o porquê.
É no recobro do bloco operatório que Maria recupera a consciência, rodeada de enfermeiros, assistentes e outros profissionais de saúde: “eu estava deitada na maca e os meus pés estavam sempre mais para cima do que a cabeça, quase a fazer o pino. Tentaram baixar a maca e, quando o fizeram, eu senti que ia morrer. Disse, por duas vezes, que não estava bem, é aquela sensação de desmaio, mas que é mais do que isso, é…estou a fugir. Eu queria beber muita água, tinha muita sede, só que eles não podiam dar. Uma das enfermeiras explicou-me que não me podiam dar água, porque senão, era mais água que sangue”.
Maria perde novamente a consciência e acorda já nos Cuidados Intensivos: “assim que me baixavam, para urinar, o sangue saía, eu achava que era urina, mas era sangue a sair de mim, estava ligada à máquina, estava a receber sangue, estava com seis litros de sangue no corpo e, por duas vezes, quase morri”.
Pouco depois de ter dado vida, a morte parecia ser o destino de Maria, que continuava a perder sangue. A solução, a única, seria a retirada do útero.
Foi por telefone que foi comunicado ao companheiro que, para salvar a vida da mulher e mãe das filhas, teriam de lhe retirar este órgão que, outrora, tinha sido sinónimo de abrigo e nutrição.
Foi no dia seguinte a ter dado entrada no HAL, no dia 16 de Março, que Maria foi submetida à excisão do útero, uma “histerectomia total, com conservação anexial, após tentativa não conseguida de hemostase do colo de útero, lacerado e já suturado”, de acordo com o relato cirúrgico a que a Beira Baixa TV teve acesso.
Maria, que tinha entrado com uma vida no seu útero, saiu da cirurgia sem ele.
De regresso aos Cuidados Intensivos, Maria começa a receber a visita dos familiares mais próximos: o companheiro, o pai, a mãe, a irmã, mas uma bactéria hospitalar, detetada na sequência de um exame com recurso a zaragatoa, voltou a causar alarme no estado de saúde, ainda frágil, de Maria e a impedir o tão desejado reencontro entre esta mãe e a sua bebé, recém-nascida.
Mas não só. Uma dor no lado esquerdo, que Maria descreve como: “semelhante à ‘dor de burro’, leva-a a pedir ajuda às enfermeiras, que lhe disseram que poderia estar a ser desencadeada pela recente operação, pela costura. O gelo que ia colocando não lhe aliviava, no entanto, as dores que sentia.
Já fora dos Cuidados Intensivos, Maria foi submetida a uma TAC com contraste, um exame que lhe foi extremamente difícil de fazer.
Após a realização do mesmo, nova má notícia: “vieram dizer-me que eu tinha de ir para Coimbra porque, ao fazerem a cirurgia ao útero, quando coseram, coseram-me o rim. A explicação foi, como estava tudo muito inchado, como foi tudo feito no momento, os órgãos não tinham tido tempo de desinchar, e podia acontecer”.
Se podia ou não acontecer, Maria só sabe que não deveria ter acontecido: “foi apanhado um tubinho do rim e tinham de resolver porque, num dos drenos que eu tinha da cirurgia, estava a sair um líquido amarelo. O que estava a sair por aí já era a urina, não estava a sair pela argalia, mas pelo buraco mais perto”.
Maria foi preparada para uma viagem, que nunca chegaria a acontecer.
“Diziam-me que eu ia para Coimbra às quatro da tarde mas, às seis da tarde, nunca mais ninguém aparecia. Vieram ter comigo, quando eu já estava com a minha mãe e com o meu companheiro para eu decidir como é que ia fazer com a minha filha, se ela continuava no hospital ou se ia com os familiares para casa. Eu decidi que ela ia para casa com o pai e com a minha mãe. Não fazia sentido ela estar no hospital quando eu lá não estava e, mesmo se eu estivesse, não conseguia tratar dela”.
Maria soube que, afinal, já não iria para Coimbra, através de uma conversa de corredor, que conseguiu escutar, desde o quarto : “Ouvimos um dos médicos a dizer que eu já não ia para Coimbra, só que demorou foi a vir ao quarto dizer-nos”.
O médico apareceria depois, com a notícia, porque, segundo o próprio, tinham estado em videoconferência com os médicos de Coimbra, que não teriam aconselhado a viagem. Foi dito a Maria que, o caso, em si, não era tão grave para justificar um caminho que podia não aguentar: “eu estava tão fraca, com anemia e a tomar ferro”.
Maria acabaria por ser intervencionada no dia 20 de Março: “o médico veio ter comigo, antes de entrarmos para o bloco, a perguntar-me se eu estava preparada e a dizer-me que ia correr bem”.
Maria recorda-se de lhe ter respondido: “Doutor, eu estou aqui para isso, já estou farta, quero ir para casa portanto, vamos trabalhar em equipa e vamos trabalhar bem”.
Maria foi submetida a uma “drenagem do ureter esquerdo com dispositivo de drenagem, em abordagem aberta”.
Após a cirurgia, Maria não esquece o gesto diário desse médico, que a ia visitar todos os dias e dar-lhe conta do estado das análises.
Durante o tempo de internamento, Maria teve de gerir outras emoções, para além das suas, nomeadamente as da irmã, de quem é muito próxima, quando a ia visitar aos Cuidados Intensivos: “ela ia mais embasbacada, prestes a explodir para chorar, só que não chorava por causa de mim. Ela ia preocupada pelo útero, na altura, não sabíamos o que se passava com o rim”.
Num dia em particular, Maria lembra-se de ter dito à irmã: “o útero está tudo certo, ou era isso ou eu morria, portanto, eu estou cá, é o que interessa e vou recuperar”.
Mas Maria não perdeu só o útero. Com ele, perdeu também a possibilidade de vir a ser mãe novamente: “eu acho que reagi bem porque tenho duas”.
Mas era o útero ou a sua vida: “era isto ou eu não estava cá”.
Foi Maria que teve a iniciativa de pedir apoio psicológico: “fui eu que pedi e dizia muitas vezes à minha família, ao meu companheiro, à minha mãe, ao meu pai para eles procurarem ajuda, porque também eles iriam precisar, principalmente a minha mãe”.
A mãe esteve sempre no centro das preocupações de Maria e recorda que, a única vez que chorou, ao longo deste processo, foi quando lhe disseram que iria para Coimbra: “eu só dizia, ai meu deus, a minha mãe, eu nem pensava em mim, eu pensava na minha mãe”.
Maria entrou no HAL no dia 15 de Março. Saiu no dia 3 de Abril.
Uma saída, tão aguardada, quanto receada.
O reencontro com a sua filha, recém-nascida, com quem só tinha estado naqueles breves momentos seguintes ao parto e poucas vezes durante todo o processo, foi um misto de emoções: “foi o eu querer fazer coisas e não conseguir. Não me conseguia manter de pé durante muito tempo e também não era aconselhado. Quando cheguei a casa, era o meu companheiro que me ajudava a vestir, a despir, a tomar banho”.
Em retrospectiva, Maria afirma: “Nós não somos médicos, mas conseguimos perceber que houve aqui falhas”.
Sem dores no corpo, as outras, são mais difíceis de cicatrizar. Maria afirma que, assim que saiu do hospital, não mais foi chamada para as consultas de psicologia, já lá vão mais de sete meses, consultas que lhe saem do bolso e que não se ficam pela psicologia: “tive de pagar fisioterapia, medicações”.
Com limitações físicas, Maria teve de estender a licença de maternidade.
Sobre as sequelas que ficam, Maria ainda não tem certezas: “o meu organismo não vai funcionar como funcionava, eu não vou ter mais menstruação, há-de haver alguma coisa que vai enfraquecer no meu corpo, como os ossos”.
Por mais que seja um assunto resolvido na sua cabeça, Maria diz que nunca irá esquecer o que viveu no HAL. É durante a noite que os pensamentos mais a assaltam: “eu ando a dormir novamente mal, porque, de vez em quando, vem-me à memória, e ponho-me a pensar: e se eles tivessem esperado que a placenta saísse naturalmente e me tivessem levado para cesariana, são aqueles pensamentos, e se…”.
A Beira Baixa TV contactou uma médica ginecologista-obstetra, que trabalha na MAC – Maternidade Alfredo da Costa e Hospital da Luz, em Lisboa, acerca do procedimento habitual, no caso da placenta não sair após o parto: “habitualmente, aguardamos trinta minutos até sair. Só depois se considera placenta retida. Nesse caso, pode-se fazer uma dequitadura manual, que consiste em retirar a placenta do útero, manualmente”.
Foi no dia 24 de Julho que Maria, fez um pedido de esclarecimento ao HAL, que teve resposta da Entidade Reguladora da Saúde mais de um mês depois, a 28 de Agosto:
“…Gostaríamos de informar que a nossa análise desta situação concreta, com base na exposição de V. Exª. e na informação remetida pelo prestador, nos levou a concluir que não existe matéria que fundamente a adoção, da nossa parte, de outras medidas regulatórias, pelo que damos por concluída a intervenção da ERS neste processo, tendo-se decidido pelo arquivamento da reclamação”.
Respeitando o princípio do contraditório, a Beira Baixa TV reservou ao HAL – Hospital Amato Lusitano, o direito de resposta da instituição que, via e-mail, fez chegar as seguintes palavras:
“Na sequência do seu contacto informamos que o processo clínico da utente foi devidamente analisado pela Unidade Local de Saúde de Castelo Branco (ULSCB), tendo sido encaminhado para a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), que, por sua vez, o remeteu para a Ordem dos Médicos, entidade competente para a avaliação técnica e ética dos atos médicos praticados. A ULSCB mantém o compromisso com a transparência, o rigor e a qualidade dos cuidados prestados, respeitando sempre os direitos dos utentes e os procedimentos legais e institucionais em vigor”.
Maria só queria que alguém assumisse a responsabilidade. Maria só queria um pedido de desculpas: “mas saber que continuam a existir erros, uns atrás dos outros, iguais ou diferentes, mas continuam a acontecer, é mau colocarem em risco a vida das pessoas. Se eu tivesse morrido, as minhas filhas ficavam sem mãe”, remata Maria.
