"Ser alcoólico é a mesma coisa que atravessar um deserto sem areia. É voar para

"Ser alcoólico é a mesma coisa que atravessar um deserto sem areia. É voar para

“Ser alcoólico é a mesma coisa que atravessar um deserto sem areia. É voar para a morte” – José Sanches

De acordo com dados do SICAD – Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, a dependência de álcool em Portugal aumentou quase 50% na última década, de 3% em 2012, para 4.2% em 2022

José Sanches tem 67 anos de idade.

Durante muitos anos, o álcool dominou a sua vida e levou-o mesmo a “cair no fundo do poço”, mais do que uma vez.

Considera que ser alcoólico é uma doença que cria a noção de não existirem problemas. “Mas, chega uma altura que surgem e corroem a nossa saúde, moral, dignidade, família”.

Aceitou partilhar a sua história de vida, e de recuperação, com a Beira Baixa TV como forma de alerta para quem possa estar a atravessar esse que apelida de “deserto sem areia”.

BBTV – Quando tiveram início os seus problemas com o álcool? Como tudo começou?

José Sanches – ” Sempre bebi socialmente e regradamente. Casei e tive filhos, filhos que adoro. Por culpa de ambos, o casamento não correu bem, mas já havia um pouco de consumo de álcool.

Devido a uma reestruturação na firma onde trabalhava, eu e todos os colegas administrativos fomos parar ao desemprego. Foi aqui que começou a minha entrada, a sério, no álcool. Na altura, pensava que era só um escape, mas não, só prejudicou. Ainda fiz uma cura de álcool, mas sem resultados. Entretanto, recomecei a trabalhar, o divórcio foi efetuado de mútuo acordo mas, a partir daqui, fiquei a viver sozinho e começou a primeira queda no abismo”.

BBTV – Como foram esses anos de dependência?

José Sanches – “Foi tabagismo, álcool, drogas, mulheres, noitadas, noites sem dormir. Nada me metia medo, pensava eu que o álcool e as drogas me ajudavam a esquecer e faziam de mim o melhor.

A produção no trabalho, claro que não podia ser a melhor, mas lá consegui até à idade de reforma.

Entretanto, fui parar ao hospital, devido a uma queda que sofri, enquanto estava alcoolizado, e fiquei a saber que sou diabético. Parei um pouco, mas logo continuei, sempre com os médicos, os filhos, as irmãs e alguns amigos, a avisarem-me.

Em Julho de 2013, tive um AVC – Acidente Vascular Cerebral Isquêmico. Fiquei um mês no hospital. Não fiquei afetado fisicamente, mas um pouco, mentalmente.

Entretanto, tive alta hospitalar e mudei de casa, mas recuperei em casa da minha irmã Teresa, que me deu todo o apoio, assim como os meus filhos e restante família”.

BBTV – Mas, entretanto, teve uma nova recaída?

José Sanches – “Já recuperado, voltei ao meu local de trabalho e continuei a viver sozinho, com visitas regulares de familiares. Tudo parecia estar a correr às mil maravilhas, já não fumava e não bebia desde o AVC, tinha sido avô, o que foi uma grande uma alegria. Mas o vício recomeçou. Com o álcool, foi horrível, era diariamente, por vezes mal alimentado, por vezes eram também as companhias, mas não culpo ninguém, problemas com a polícia derivado ao álcool, fiquei inibido de conduzir. Caí no fundo do poço”.

BBTV – Quando percebeu que tinha de alterar o rumo da sua vida?

José Sanches – “Aos poucos, com a ajuda das minhas irmãs, dos meus filhos, dos meus amigos. Realço a ajuda da minha irmã Teresa, que está comigo nesta fotografia e que, sem eu saber, me marcou uma consulta num médico especialista. Foi o princípio do fim do pesadelo”.

BBTV – A sua família sofreu com este seu problema?

José Sanches – “A minha filha Ana, tenho outro filho que é o Tiago, veio-me buscar a casa, para ir com ela, mas eu estava com uma ressaca tão grande que não queria ir. Mas fui muito bem recebido, aconselhado, medicado e vim para Alcains. Foi muito duro, os amigos diziam-me: Zé, então, a beber água e coisas do género. Ainda recai, algumas vezes. Os meus filhos e a minha irmã Teresa sabiam e ralhavam comigo”.

BBTV – Procurou e teve ajuda?

José Sanches – “A idade da reforma estava a aproximar-se, eu comecei a pensar e tomei a decisão de me afastar de certos estabelecimentos, de certos amigos, não de todos, e deixei mesmo de beber álcool.

Com a reforma adquirida, pensei: e agora, o que vou fazer? Cheguei a ter medo de mim mesmo, mas comecei a fazer caminhadas sozinho. Durante as mesmas, pensava, refletia sobre a vida, a qualidade de vida que tinha tido, no passado, e pensava: porque não agora? Para ocupar os tempos livres, inscrevi-me na USALBI – Universidade Sénior Albicastrense. Ao princípio, não gostei mas agora frequento quase todas as disciplinas: ginástica, informática, walking football, hidroginástica, cidadania, colóquios e viagens. Também criei um grupo para caminhar, uma vez por semana, aqui onde resido”.

BBTV – Como está, neste momento?

José Sanches – “Bem, quem me viu e quem me viu e quem me vê? É uma mudança da noite para o dia. Atualmente, estou numa relação que ainda não é do conhecimento público, mas que virá a ser. Tenho mais amizades, pessoas com quem convivo, e que ficaram admiradas como eu consegui sair do poço. Dão-me, diariamente, apoio para continuar o trajeto. Agora, parece que vivo noutro mundo, falo com quase toda a gente, ando muito mais bem humorado e brincalhão, já não olham para mim como antigamente, em que pensavam: lá vai o bêbado”.

BBTV – É hoje um José diferente? Encara a vida de outra forma?

“Cada vez gosto mais de viver e ver crescer os netos, que são a minha alegria.

Atualmente, tenho um vício que é cozinhar: sou eu que cozinho para mim, para meus filhos que pedem: pai faz lá aquilo, e para amigos. Pratico muito e publico algumas fotografias de pratos que faço nas redes sociais, onde tenho uma média de duzentas a trezentas visualizações por fotografia publicada.

Outro hábito que voltei a ter é ouvir música, quer em casa, quer nas caminhadas que faço.

Depois de uma palestra na USALBI, com o escritor Luís Osório, voltei a ter o gosto pela leitura e, agora, sou um adepto das suas obras que, de vez em quando, leio e me fazem sentir bem”.

BBTV – Quer deixar uma mensagem a quem possa estar a atravessar este problema?

José Sanches – ” É complicado, eu também não queria acreditar que era alcoólico, mas era. Tenho amigos que vejo que estão lá a chegar, mas é complicado falar com eles, não aceitam e, por vezes, ainda ofendem.

Às vezes, quando entro num café ou num bar onde se consome álcool, costumo dizer: eu é que era o bêbado.

Ninguém responde, olham para mim, mas nem um sorriso”.

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