Jorge Batista - O último Marceneiro da cidade de Castelo

Jorge Batista - O último Marceneiro da cidade de Castelo

A porta está sempre aberta para quem quiser aparecer. Com ou sem móveis para restaurar.
Assim é desde 1977, no número 20 da Rua do Relógio, em Castelo Branco. Um espaço aberto como loja, por Maria de Lourdes, e transformado pelo filho, Jorge Batista, em oficina, nos finais da década de oitenta.
À medida que avançamos na oficina, o cheiro entranha-se: um misto entre madeiras, tintas e colas. Uma sensação de sabermos exatamente o que se faz ali, sem ainda nos ter sido explicado.

Jorge Batista tem cinquenta e cinco anos de idade e é Marceneiro. Nas suas palavras, o último da cidade e do concelho de Castelo Branco.
Considera-se um ditador na arte do restauro, porque leva o respeito pela origem da peça ao expoente máximo. “Uma questão de respeito, até para quem fez a peça”.

Depois de ir buscar um pequeno banco de madeira, Jorge começa a falar do seu percurso e da importância da sua mãe, “a grande impulsionadora, empreendedora, do negócio”, nas palavras deste filho. “A minha mãe sempre foi uma grande mulher”, afirma.
Cresceu ao pé de móveis, entre brincadeiras e pequenas ajudas, desde os cerca de oito anos de idade. “Eu sempre gostei disto e sempre quis seguir isto”, afirma.
Foi com a sua mãe e com os colegas, que aprendeu muito do que sabe.
Quando o negócio era dominado pelos pais, fazia-se venda de mobiliário, alguns restauros e algum fabrico, pontualmente. “Desenhava eu e a minha mãe e mandávamos fazer”, relembra, acrescentando que davam o acabamento final e vendiam.

Na sequência de um acidente grave sofrido pelo pai, Jorge assumiu, com o apoio da mãe, as rédeas do negócio de família. Ainda equacionaram a possibilidade de acabar com a oficina e ficar com as lojas.
Tinha cerca de dezoito anos de idade e muita sede de fazer, de apostar na oficina.
Com este apoio, comprou mais equipamento e desenvolveu a oficina, entre o fabrico, o restauro e a consultoria.
Jorge relembra os tempos em que eram mais de duas mãos a trabalhar. “éramos sempre aqui, na oficina, três a quatro pessoas, e aí fabriquei, restaurei e desenhei muito mobiliário”.
Jorge relembra o Sr. Bernardino: “um grande técnico”, com quem aprendeu muito e relembra o projeto POPs da Fundação de Serralves, a seleção para a Mostra de Design e o Projeto Bitola, em conjunto com o arquiteto, João Dias: “o objetivo era desenvolver o mobiliário contemporâneo, experimental”, um projeto, entretanto, “adormecido”.
Este core business assim se manteve até cerca de 2016, altura em que, por circunstâncias da vida, ficou sozinho na oficina, e decidiu apostar mais no restauro e na consultoria, ainda que vá fabricando, pontualmente.
Jorge adapta-se e adapta o seu negócio às circunstâncias, qual camaleão nesta arte.

Mas é o ensino que lhe dá um novo alento na voz. Assim é desde um workshop que deu, há alguns anos atrás, sobre como colar uma cadeira de cozinha, em que aproveitou para sensibilizar os seus alunos para olharem para o mobiliário de forma diferente, abordando a história do mobiliário, a estética, a função.
Confessa que, na altura, ficou triste consigo próprio, por não ter espaço para “por aquela gente com a mão na massa”. “Vi, nos olhos deles, que estavam sedentos de meter as mãos na massa”, relembra.
Foi nessa altura, que percebeu que havia potencial para ensinar.
Foi, nessa altura, e pela primeira vez, que percebeu que era o último a fazer este trabalho. “Dentro de muralhas, éramos sete oficinas de Marcenaria e uma de Carpintaria e havia latoeiros e estofadores”, relembra Jorge, afirmando que, hoje, já está sozinho na cidade, a fazer restauro. Este Marceneiro vai mais longe e diz mesmo, estar sozinho no concelho. No distrito, já não sabe.
Foi quando a vontade de abrir uma oficina-escola despertou, “sempre com o intuito da economia circular, com uma função, principalmente, social”.
Não podendo, para já concretizar este sonho, e porque, tal como diz o ditado, sonhar não paga imposto, Jorge não se coíbe de imaginar como seria a sua oficina-escola: “Iria fazer, desde o restauro mais complexo, à colagem da cadeira de cozinha da Tia Maria, sempre com uma vertente em que os alunos iriam ter aulas em várias áreas, gestão, história da arte, língua estrangeira, entre outras”.

Jorge é autodidacta.
Foi aos cerca de onze, doze anos de idade, que comprou os primeiros livros de História do Mobiliário. Na extinta “Papelaria Semedo”. Quando os amigos liam Banda Desenhada.
Um a um, foi construindo a sua biblioteca que apelida de “simpática” e que conta com milhares de livros.
Foi neles, nos livros, que foi “beber” muito conhecimento. E continua a “beber”, relembrando que os génios, só o da Lâmpada, na história do Aladino: “está tudo inventado, não há génios. Hoje, ninguém cria nada, as pessoas vão beber e adaptam-se”.

Nem de propósito, é quando começa a falar deste assunto que irrompe oficina dentro, um grupo de alunos do Curso Pré-Universitário do IPCB – Instituto Politécnico de Castelo Branco, vindos do outro lado do Oceano Atlântico: Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador.
Um dos alunos pergunta com que madeiras Jorge trabalha. “Com todas”, responde, prontamente, antes de começar, ele próprio, a dar uma pequena palestra a estes alunos, alternada entre o português e o espanhol.
Começa por explicar que o seu trabalho se baseia no restauro de mobiliário, mas específica: “móveis muito antigos, muy ancianos, chegam aqui todos partidos, em muito mau estado e volto a trazê-los à vida, a restaurá-los”, e dá como exemplo, o móvel em que está a trabalhar: “um móvel relativamente recente, de finais do século XIX, dentro do Romantismo”. Qual professor de história, Jorge lembra que todo o mobiliário é classificado por uma estética.
Um aparador que, agora, nas palavras de Jorge, “vale zero comercialmente”.
É mandado restaurar, no presente, em nome de uma memória do passado. Jorge elucida que, hoje, o capital é a memória, no caso, a memória da senhora era a deste móvel na casa da bisavó, onde a avó abria uma gaveta e tirava os chocolates.
Mais de noventa por cento do trabalho de restauro deste Marceneiro deve-se a este capital emocional: “não há espaço temporal para valorizar a peça de mobiliário economicamente”, justifica.
Outra história é o seu capital económico que, só “noutra vida ou noutra” será reconhecido: “Este móvel vai cá ficar e daqui a cem ou duzentos anos, é que vai valer economicamente”.

Ao contrário, Jorge lembra a peça mais antiga que as suas mãos já restauraram. Foi sozinho, durante a Pandemia da Covid-19: “uma gaveta indo-portuguesa, uma peça do século XVII”, uma peça que entrou na sua oficina a valer praticamente zero. A proprietária investiu mil e seiscentos euros no restauro e, atualmente, vale entre doze a treze mil euros. Uma peça mandada restaurar precisamente, devido à memória da proprietária que, com ela brincava, na casa da sua avó.

Sobre o seu público-alvo, Jorge diz que são todos, ou seja, todas as faixas etárias: “tenho ali uma carteira, daquelas de escola, de madeira, onde ainda estudei, que restaurei para um rapaz que tem trinta e tal anos e já é a segunda que me manda restaurar”.
Para além de quem, os porquês. Jorge aponta as duas grandes razões que, na sua opinião, estão na base de quem pede restauros: “ou porque gostam deste tipo de estética, ou pela memória”.
Nesse sentido, Jorge restaura mais do que móveis. Restaura todas as emoções associadas, porque as vidas vão, mas os móveis ficam.

Porque as peças também contam histórias, falam, Jorge deixa-se levar pelo que elas dizem: “Quando se está a fazer um restauro, está-se a aprender com a peça, há sempre desafios novos e nunca há tarefas repetidas”.
Jorge confessa que os problemas que encontra nas peças, leva-os, todos os dias, para casa, um matutar sobre como os vai resolver, sem deturpar a peça.
Jorge relembra uma das peças que “mais voltas à cabeça” lhe deu: “uma cadeira de 1850 – 1860 que, ao sentar, dava música”. Esta, não a encontrava nos livros e Jorge demorou algum tempo até perceber a sua origem: “era vendida para qualquer parte do mundo, vinha numa caixinha desmontada e que uma criança conseguia montar, porque não dava para trocar os seis parafusos, quatro mais pequenos e dois maiores”.
Jorge faz um desenho da peça, de todos os restauros que faz, e começa a intervenção, pelo mais fácil, para se ir adaptando e envolvendo com a peça. Como quando se conhece uma pessoa.
No restauro, o cliente de Jorge é convidado, a meio do processo, a visitar a sua peça. E são muitas as vezes que não a reconhece, de imediato.
E é quando vai a casa de algum cliente e vê uma peça que teve a sua mão, anos atrás, que Jorge relembra a sua história e os problemas que lhe deu. “Há aquele voltar atrás”.

Aos alunos que vieram pela sua mão, Helder Henriques, relembra a importância de Jorge Batista no processo de integração de Castelo Branco na Rede de Cidades Criativas da Unesco, na Categoria de Artesanato e Artes Populares. Apelida-o mesmo de “parte viva da identidade da zona histórica da cidade”.
Mas esta não é a primeira vez que, pela porta dentro, entram alunos vindos dos quatro cantos do mundo. Jorge relembra que, há pouco tempo, recebeu alunos provenientes da Irlanda para, com ele, estagiar. “Eu vejo miúdos novos, com mais jeito que eu”, afirma, e dá o exemplo do arquiteto que, todos os sábados, está na oficina a fazer o restauro de uma caixa de facas e de duas cadeiras, sob sua orientação. “Eu, quando estou a explicar e a dar-lhe atenção, eu deixo de fazer o meu trabalho”, afirma, justificando o porquê de não ter um discípulo ou aprendiz.

A terminar a entrevista, com um vaivém de pessoas a entrar e sair na oficina, Jorge volta sempre ao sítio onde gostava de estar, a sua idealizada oficina-escola: “Isto é um negócio sustentável, economicamente e ambientalmente. Ambientalmente, porque não se estão a cortar árvores novas e não estaríamos a gastar energia, porque é quase cem por cento, manual. A nível económico, haveria sempre trabalho, hoje é uma perna de uma cadeira partida, amanhã é o lado de uma cama”.

Jorge é o último Marceneiro, mas não o queria ser, para sempre. Por isso,gostava de deixar o seu conhecimento e legado a um projeto destes. O juramento, já o fez.
“Comprometo-me a deixar toda a minha ferramenta: as minhas máquinas, os meus móveis, a minha madeira, a minha biblioteca, que é muito simpática, e o meu conhecimento, a uma oficina-escola “.

É em nome deste sonho, e só dele, que Jorge continua a jogar no Euromilhões.

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