“Hoje não escrevo apenas como filha. Escrevo como cuidadora e escrevo muito revoltada.
Ontem, o meu pai, de 87 anos, com demência há mais de oito anos, teve um episódio que nenhum filho, nenhuma esposa, deveria ser obrigado a assistir.
Sem que nada o fizesse prever, ficou inconsciente, deixou de respirar, ficou roxo e teve convulsões. Foi necessário o transporte pela VMER.
Foram momentos de verdadeiro terror.
Comigo em pânico, a pedir ajuda ao INEM, ao mesmo tempo que tentava socorre-lo…
Foi necessário a vinda da VMER que demorou tanto tempo a chegar. Valeu mais uma vez a prontidão, a rapidez e o profissionalismo dos Bombeiros de Proença a Nova ❤️.
E sabem o que aconteceu depois?
Poucas horas depois, ainda sem terem passado 24 horas sobre aquele episódio, o meu pai teve alta e apareceu em casa trazido pelos bombeiros, pelas nove e pouco da manhã.
Sem um telefonema à família, sem perguntarem se estávamos preparados para o receber, sem discutirem connosco os riscos de o levar novamente para casa.
Sim, trouxe relatório de alta, sim, trouxe cópias dos exames realizados.
Mas um papel não substitui uma conversa.
Um relatório não substitui uma explicação.
E uma alta não pode ser simplesmente o transporte de um doente da porta do hospital para a porta de casa.
Ninguém nos explicou verdadeiramente porque aconteceu aquela convulsão, qual o risco de voltar a acontecer, o que deveríamos fazer se acontecesse novamente ou quais os sinais que deveriam levar-nos imediatamente de volta ao hospital.
Foi-lhe iniciado levetiracetam, um medicamento para a epilepsia, sem nada nos explicarem.
Mas uma família que fica responsável por um homem de 87 anos, dependente e com demência, tem direito a saber exatamente o que está a administrar, quais os efeitos adversos a vigiar e que cuidados deve ter.
E há uma coisa que talvez seja importante dizer: nós não queremos descartar o nosso pai. Não o queremos institucionalizar simplesmente porque é velho, dependente ou porque cuidar dele é difícil.
Cuidamos dele há mais de oito anos.
Com amor, com respeito, com noites sem dormir, com consultas, medicamentos, infeções, quedas, preocupações e medo.
Enfim, com tudo aquilo que ninguém vê quando olha apenas para um idoso dependente.
Somos uma família presente.
E fazemos este trabalho diariamente, sem apoio institucional.
Não estamos a pedir que o Estado cuide do nosso pai por nós. Estamos a pedir que, quando precisamos do hospital, o hospital cumpra a sua parte.
Porque cuidar de um idoso em casa também é uma responsabilidade enorme.
E, quando o entregamos aos cuidados de saúde depois de um episódio desta gravidade, esperamos que seja feita uma avaliação rigorosa e que, quando regressar a casa, regresse em segurança.
Vivemos a cerca de 50 quilómetros de Castelo Branco.
Ontem, quando tudo aconteceu, a VMER demorou a chegar até nós.
Se voltar a acontecer alguma coisa semelhante, não estamos a falar de uma ambulância que aparece em cinco minutos à porta de casa, estamos a falar de uma realidade que deveria ser considerada na decisão de dar alta a uma pessoa vulnerável.
Hoje, depois de chegar a casa, o meu pai dormiu durante horas. Chegámos ao ponto de não conseguirmos acordá-lo adequadamente. A saturação esteve nos 92%, agora está mais desperto, mas também mais agitado e a saturação continua baixa.
E é aqui que começa a revolta.
Porque nós ficámos em casa com o medo, com as dúvidas e com a responsabilidade.
Nós ficámos com o doente.
O sistema pode fechar um episódio clínico num relatório de alta nós não podemos.
Nós temos de estar lá quando ele respira quando não respira, quando tem febre, quando cai, quando não come, quando não dorme, quando uma medicação lhe faz mal, quando temos medo de que alguma coisa aconteça durante a noite.
Há mais de oito anos que somos nós.
Por isso, não aceito que uma família que cuida, que acompanha e que está presente seja tratada como se fosse apenas alguém a quem se entrega um doente à porta de casa.
Não somos um depósito de idosos. Somos família.
E exigimos que a nossa preocupação seja respeitada.
Não quero privilégios para o meu pai.
Quero segurança.
Quero informação.
Quero responsabilidade clínica.
Quero que alguém explique como é possível considerar adequada uma alta tão rápida depois de um episódio desta gravidade?!
E quero que se perceba uma coisa muito simples:
Quando uma família cuida de um idoso em casa durante oito anos, não está a poupar apenas sofrimento ao próprio. Está também a assumir uma responsabilidade que muitas vezes deveria ser partilhada pelo Estado.
Também não queremos medalhas por isso, não queremos aplausos.
Mas também não aceitamos ser abandonados à nossa sorte quando o nosso pai regressa do hospital depois de quase morrer à nossa frente.
O meu pai não é um número. Não é uma cama libertada. Não é um problema para despachar.
É o MEU/ NOSSO nosso PAI .
E enquanto nós estivermos aqui, será tratado com amor, dignidade e respeito.
É exatamente isso que exigimos que o sistema de saúde faça também.”
