"O maior medo é, naturalmente

"O maior medo é, naturalmente

“O maior medo é, naturalmente, não conseguirmos garantir a segurança do nosso pai perante uma nova situação”

Há oito anos, Ana Perpétuo abdicou da sua vida ‘sem pestanejar’, para cuidar do seu pai.

Uma ‘praia’ desconhecida para Ana, que teve de aprender tudo, com a ajuda de uma rede de amigos enfermeiros, médicos, psicólogos, auxiliares, que a ajudaram e orientaram.

“Sem ajuda estatal, não é fácil ser cuidadora, numa aldeia a três quilómetros de Proença-a-Nova”, considera.

Foi na terça-feira, dia 25 de Agosto, que Ana apresentou uma reclamação formal à ERC – Entidade Reguladora da Saúde.

No dia anterior, segunda-feira, dia 24 de Agosto, já o tinha feito ao Gabinete do Cidadão e à Administração do Hospital Amato Lusitano, pertencente à ULS – Unidade Local de Saúde de Castelo Branco.

Em causa, a forma como o pai foi tratado e, sobretudo, a decisão de lhe ter sido dada alta, poucas horas após um episódio que Ana descreve como “gravíssimo”, bem como a “falta de informação e de contato com a família”.

O pai de Ana deu entrada no Serviço de Urgência do HAL no passado domingo, dia 23 de Agosto, e teve alta na segunda-feira, dia 24.

“Poucas horas depois, ainda sem terem passado 24 horas sobre aquele episódio, o meu pai teve alta e apareceu em casa, trazido pelos Bombeiros, pelas nove e pouco da manhã; sem um telefonema à família, sem perguntarem se estávamos preparados para o receber, sem discutirem conosco os riscos de o levar novamente para casa”.

Esta família não contesta a alta hospitalar, mas sim, as condições em que a mesma foi dada.

“Este é o terceiro episódio que acontece e que, para mim, é uma falta de tudo. O meu pai tem demência e disfasia, só uma vez tive direito a pulseira roxa para o acompanhar, de resto, fica sempre sozinho, é inadmissível; o Estado não pode, simplesmente, ignorar que há famílias a poupar-lhe imenso dinheiro e depois, quando precisamos de ajuda, é isto, uma falta de empatia, humanismo e brio profissional”.

O relatório da Urgência de Medicina, a que a Beira Baixa TV teve acesso, diz o seguinte: “Dadas informações à filha de forma presencial. Informa-se do plano de ficar em observação durante a noite no SU e que irá ser contactada de manhã. Recomenda-se também à filha a procurar auxílio para cuidados ao pai”.

O relatório data de 23 de Agosto. 21h07. De acordo com Ana, o contacto prometido, ainda não aconteceu.

A Beira Baixa TV entrevistou esta filha sobre o atual estado do pai.

BBTV – Como está o vosso pai? Continua “agitado e com a saturação baixa”?

“Neste momento, o meu pai continua muito sonolento. Depois de regressar a casa, dormiu durante muitas horas e houve momentos em que foi bastante difícil despertá-lo. A saturação de oxigénio tem oscilado, tendo chegado aos 90%, e tem também apresentado temperatura na ordem dos 37.5. Eu sei que isto ainda não é considerado febre, mas é um sinal de que algo não está bem.

E existe ainda uma preocupação acrescida: durante o transporte houve vómitos e houve aspiração do vómito, está no relatório clínico e eu presenciei isso na viagem, o que nos foi referido, por amigos da área da saúde, como uma situação que pode aumentar o risco de desenvolver uma pneumonia de aspiração. Tendo em conta a idade, a demência, a sonolência e os níveis de oxigénio, estamos particularmente atentos a qualquer alteração respiratória ou agravamento do estado geral.

Estamos a acompanhar a evolução muito de perto, posso dizer-vos que a noite passada foi passada em praticamente em claro, a medir saturação, temperatura, e tensão de duas em duas horas. Caso não melhore ou surjam novos sinais de alarme, não hesitaremos em voltar ao serviço de urgência”.

BBTV – Já foram contactados pelo Hospital Amato Lusitano?

“Até ao momento, não fomos contactados pelo hospital após a alta.

O que nos foi transmitido no hospital foi que o meu pai ficaria em observação e que seríamos contactados de manhã. Foi essa a informação que recebemos e, por isso, regressámos a casa convencidos de que o meu pai continuaria sob vigilância clínica durante a noite.

Por esse motivo, ficámos surpreendidos quando os bombeiros apareceram em nossa casa com o meu pai, sem que tivesse existido qualquer contacto prévio para informar da alta ou esclarecer a família”.

BBTV – O que sabem sobre o episódio ocorrido? Ou seja, sabem exatamente o que aconteceu?

“Aquilo que sabemos é aquilo que assistimos em casa e o que consta da documentação clínica.

O meu pai fez um som estranho, perdeu a consciência, deixou de respirar, ficou roxo, revirou os olhos e iniciou movimentos convulsivos generalizados. Foi um momento extremamente angustiante e motivou o acionamento imediato da emergência médica.

Durante o transporte, houve também vómitos e aspiração do vómito, o que acrescentou uma preocupação respiratória.

Sabemos que lhe foi prescrita medicação anticonvulsivante, nomeadamente levetiracetam.

No entanto, continuamos sem saber de forma clara qual foi a causa concreta do episódio e se foi identificada uma explicação definitiva para aquilo que aconteceu.

Essa é precisamente uma das questões que gostaríamos de ver esclarecidas”.

BBTV – O vosso pai necessita de monitorização constante?

“Sim.

O meu pai tem 87 anos, vive com demência há mais de oito anos e necessita de supervisão e acompanhamento permanentes. Come pela sua mão, ainda anda com a ajuda do andarilho, e a nossa ajuda, ainda pede para ir a casa de banho, embora tenha afasia ainda comunica e fala e nos dias em que está inspirado ainda consegue trautear alguns fados.
Mas precisa de nós para tudo, vestir, tomar banho, idas a casa de banho, ajuda para se movimentar…
A demência implica limitações importantes na autonomia, na capacidade de compreender orientações, comunicar sintomas e gerir a própria segurança.

Depois deste episódio, essa necessidade de vigilância é ainda maior, sobretudo porque continua muito sonolento, apresenta saturações baixas e tem tido febre. Acresce o risco de uma eventual pneumonia de aspiração, devido ao episódio de vómito e aspiração ocorrido durante o transporte.

Somos nós que garantimos diariamente os seus cuidados, a medicação, a vigilância e toda a assistência necessária”.

BBTV – Quais são os vossos maiores receios?

“Neste momento, o nosso maior receio é que o episódio se repita ou que exista alguma causa subjacente que ainda não tenha sido completamente esclarecida.

Não foi a primeira vez, esta foi a segunda vez que aconteceu, a primeira vez, foi após uma vinda do hospital, em que lhe foi administrado um antibiótico qualquer que fez interferência com a medicação habitual que toma e lhe causou uma convulsão, e este episódio de ontem não sabemos a sua origem. Assistir a uma situação desta natureza é aterrador ver o nosso pai inconsciente, sem respirar, cianótico e em convulsões, porque queremos agir, mas o pânico toma conta de nós. É um exercício muito complicado de fazer nestas alturas, o de manter a calma quando alguém que amamos está por um fio.

Preocupa-nos também o seu estado atual: a sonolência persistente, a saturação de oxigénio baixa, a febre e o risco de desenvolver uma pneumonia por aspiração.

Existe ainda o receio de uma nova emergência, sobretudo porque vivemos a cerca de 50 quilómetros do hospital e, no dia do episódio, a VMER demorou algum tempo a chegar.

Mas o maior medo é, naturalmente, não conseguirmos garantir a segurança do nosso pai perante uma nova situação destas.

Nós cuidamos dele há mais de oito anos, com amor, respeito e dedicação. Não queremos entregá-lo ao sistema nem deixar de assumir a nossa responsabilidade. Queremos apenas que, quando recorremos aos cuidados de saúde perante uma situação grave, tenhamos a certeza de que ele foi devidamente avaliado e que regressa a casa em segurança.

E é precisamente por isso que decidimos reclamar: não para atacar profissionais, mas para exigir respostas e para que situações que consideramos preocupantes sejam analisadas”.

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