” É onde a vida começa e o amor nunca acaba”.
Neste Dia da Mãe, a Beira Baixa TV entrevista Ema Gomes, mãe, bombeira, trabalhadora independentemente, que se viu numa situação limite, durante a passagem da Depressão Kristin, quando a água entrou pelo telhado da habitação e deixou esta família sem chão. Literalmente.
Beira Baixa TV – O Dia da Mãe tem outro significado desde que se tornou mãe, há cinco anos atrás?
Ema Gomes – “Não diria que seja só o Dia da Mãe, são todos os dias desde aquela sexta-feira 13 em que nasceram. A palavra Mãe, tem também outro significado para mim enquanto mulher. Todos os dias lhes digo que as amo. Às vezes, enquanto estou a fazer algo, elas chamam-me apenas para me dizer que também gostam muito de mim ou que me amam. É um dia especial claro, encaro como uma celebração da maternidade!”.
Beira Baixa TV – A maternidade muda tudo, há um antes e um depois. Como foi, no seu caso?
Ema Gomes – Antes, havia uma Ema que não tinha muita rotina, que viajava bastante, que saia de casa apenas com as chaves e o telemóvel e que ficava a trabalhar até tarde, que tinha boa memória e raramente se sentia cansada. Depois, passou a haver toda uma logística para ser possível sair de casa. Estava muito habituada a fazer planos e a que os conseguisse concretizar. Ainda há planos, mas há sempre imprevistos. Passar de uma vida sem filhos para, de repente, ter dois nos braços, é uma grande mudança. Não há muito tempo para conseguir pensar, é preciso fazer, porque logo a seguir há outro bebé a necessitar exactamente do mesmo cuidado que acabámos de dar. Acredito que, quando a maternidade traz um bebé de cada vez, existe um período de adaptação mais facilitado, ou pelo menos não tão exigente como é ter gémeas. Elas nasceram no ano do COVID e por isso tudo se tornou mais difícil, foram meses em que estive fechada em casa com receio de apanhar covid, depois tive cerca de sete semanas internada, antes do nascimento delas e, nessa altura, foi quando mais tive noção que realmente tudo muda e muda bastante.
Beira Baixa TV – Que valores tenta transmitir às suas filhas e que mulheres espera que se tornem?
Ema Gomes – “Eu tento transmitir-lhes principalmente valores de respeito, de solidariedade e igualdade. Elas questionam muito, são crianças bastante curiosas e, por isso, acabo por ter que lhes explicar tudo, transmitindo-lhes também o que é correto. Elas têm noção que não se deve enganar, que se deve partilhar e acima de tudo ajudar os outros, aliás, diria que este talvez seja um dos valores que mais lhes transmito e que elas mais colocam em prática. Quero que elas sejam acima de tudo livres e que possam ser aquilo que elas quiserem. Acredito que serão pessoas justas e com uma grande capacidade de viver em sociedade”.
Beira Baixa TV – Suponho que um dos momentos mais difíceis que tenha experienciado, enquanto mãe, tenha sido a madrugada de 28 de Janeiro, aquando da passagem da Depressão Kristin. O que recorda dessa noite, em que teve de abandonar a casa, com as suas filhas nos braços?
Chegou a temer pela vida delas e pela sua?
A prioridade era proprotegê-las?
O facto de ser bombeira (na reserva), preparou-a, de alguma forma, para lidar com uma situação tão extrema?
Ema Gomes – “Foi uma madrugada muito difícil. No dia anterior tínhamos ido a uma consulta a Coimbra e o regresso foi bem ao fim do dia, já cheguei a casa com bastante receio pelo temporal que estava. Nessa noite dormi até perto das 3h da manhã, a partir daí o vento começou a ficar mais forte. Por volta das 4h elas acordaram com o ruído do vento. Quando senti que o vento estava a aumentar e que estavam a aparecer barulhos bem estranhos (que percebi depois serem telhas a bater nas paredes exteriores), peguei nelas e meti-me na casa de banho. Ficámos as 3 abraçadas, elas choraram muito e eu também. Não tinha noção do que estava a acontecer, sentia uma enorme vibração das portas, das janelas, pensei até que os vidros iam partir. Percebi que as paredes estavam a partir pois ouvia muito ruído no sótão, ouvi os ferros do telhado a dobrar e a serem arrancados juntamente com algumas paredes. Ainda consegui ligar ao meu marido que estava fora em trabalho a dizer-lhe para vir para casa assim que pudesse. Lembro-me de algum tempo depois os vizinhos aparecerem para verem se estávamos bem. Todo o resto do dia está praticamente em branco. Sei que fui à GNR, aos Bombeiros, à Câmara Municipal, mas tudo o resto não me recordo, nem desse dia, nem dos dias a seguir. Não foi uma situação fácil, porque não tinha noção do que ia acontecer. A nossa casa é de 1937, não sabia se as paredes de pedra iam ceder, o ruído era tão intenso. Já tive outras situações principalmente com elas, em que ter sido bombeira foi fundamental para as ajudar. Uma das gémeas fez um engasgamento total no dia em que tivemos alta da maternidade, se não fosse bombeira nem tivesse formação talvez aquele tivesse sido um dia bem negro. Elas também já fizeram vários episódios de convulsões e sempre consegui ter calma e mantê-las seguras e estáveis. Mas naquela noite de 28 de janeiro senti-me bem pequena perante tudo o que aconteceu. Só quando o vento acalmou consegui ter alguma calma, ainda assim foi uma situação em que senti impotência porque não havia nada que eu pudesse fazer além de as abraçar e esperar que tudo passasse. Apesar de nos bombeiros ter tido uma grande preparação para várias situações, tudo muda quando são os nossos a depender do nosso cuidado e proteção”.
Beira Baixa TV – Como foram os dias seguintes? A determinada altura, elas perguntavam-lhe quando voltariam para casa. Quando não há uma resposta, que resposta se dá?
Ema Gomes – “Os dias a seguir foram muito duros. Primeiro a chuva, que deixou a casa bem danificada, principalmente na zona dos quartos. O dia teve soalheiro e calmo, deu para colocar plásticos no telhado, mas a noite que se seguiu a precipitação foi muito forte e os plásticos não seguram a água. Havia água a sair por candeeiros, interruptores, o chão ficou literalmente a nadar na água. Estivemos em casa de familiares, em unidades hoteleiras. Mas a pergunta diária delas era exactamente quando iam voltar a ter o quarto delas, quando iam voltar a ter o quarto dos brinquedos. Para duas crianças de 5 anos, foi muito difícil entender que todos os dias não iam voltar pra casa, que era uma zona de conforto, de brincadeira, de calma, era o espaço delas. Sempre lhes demos esperança de que iríamos voltar a casa, que tudo ia passar, ainda assim não foi facil porque temporalmente para as crianças alguns dias parecem ser “quase uma vida” e tudo o que lhes dava segurança tinha estava destruído”.
Beira Baixa TV – Sente que as suas filhas ficaram, de alguma forma, traumatizadas? Essa noite deixou marcas? Elas falam sobre o assunto?
Ema Gomes – “Nos primeiros dias, elas falavam do telhado a toda a gente, senti que era uma forma de exteriorizarem, de desabafarem. Entretanto começaram com pesadelos, ainda hoje têm receio do vento e da chuva. Se estivermos na rua e estiver vento elas começam a chorar e pedem para irem para dentro de casa. Ficam muito nervosas em dias de mau tempo. Já tiveram com uma psicóloga e continuarão a estar. Aquela noite foi bastante aterradora”.
Beira Baixa TV – Em algum momento, se permitiu ‘quebrar’, chorar? Ou uma mãe tem de ser sempre forte?
Ema Gomes – “Elas viram-me a chorar muita vez. Quanto mais chovia nos dias seguintes mais vontade eu tinha de chorar. Eu senti que a única forma de conseguir aguentar tudo era chorar. A primeira semana foi muito dura. Depois comecei a conseguir controlar-me e chorava à noite depois delas adormecerem. Elas chegavam a estar comigo a chorar e diziam que quando o pai chegasse para eu não chorar. Acho que elas perceberam que eu precisava mesmo de chorar para descomprimir e elas também têm noção que todos temos vários sentimentos e digo-lhes várias vezes que chorar não faz mal”.
Beira Baixa TV – Passados mais de três meses, como está a situação? A casa está parcialmente reconstruída?
Ema Gomes – “Regressámos a casa no dia 12 de abril. Ainda temos bastante água nas paredes, conseguimos repor o telhado e neste momento quando chove já não entra água. Estamos a dormir na sala e a usar apenas a zona da cozinha/casa de banho que foi a menos afetada”.
Beira Baixa TV – Que ensinamentos se tiram quando, em cerca de três minutos, a água destrói o que levou anos a construir?
Ema Gomes – “Que os “tijolos” também nos dão conforto, segurança e que ainda que estejamos os 4 juntos, a nossa casa é a nossa casa e nada é garantido, absolutamente nada. Não acontece só aos outros. Podemos ver as notícias mais horríveis sobre pobreza, sobre desalojados por incêndios, sismos noutros países com graus de destruição enorme, mas vemos, comentamos e voltamos para a nossa vida. Quando nos toca percebemos que absolutamente nada é garantido nesta vida e que há situações que não acontecem só aos outros”.
Beira Baixa TV – Ficou surpreendida com o resultado da campanha de angariação de fundos, mas esperava mais celeridade nos apoios?
Ema Gomes – “Fiquei bastante, ponderei sobre se faria ou não o crowdfunding, sabia que poderiam haver mais, que iria haver pessoas a duvidar, a comentar, a criticar. Mas foi a ajuda que nos permitiu iniciar os trabalhos de reconstrução, foi um alívio porque de outra forma não seria suportável. Tenho noção que os apoios não chegam no imediato, aliás, apenas daqui a alguns dias teremos a avaliação da candidatura que fizemos aos apoios do estado. Se não tivéssemos tido a ajuda do crowdfunding e de outras plataformas, pessoas e organizações provavelmente não teríamos ainda o telhado colocado”.
Beira Baixa TV – Que mensagem poderia deixar a outras mães, que tenham enfrentado situações limite com os filhos?
Ema Gomes – “Que é difícil protegermos-nos a nós e aos nossos filhos, que às vezes a esperança pode desaparecer mas sempre haverá uma solução, que pode demorar, mas aparecerá”
Beira Baixa TV – A Ema é mãe, bombeira, trabalhadora independente. Tem rede de apoio? É importante?
Beira BaixaTV – “É importante e não tenho. Quando olho à minha volta vejo várias pessoas que a têm, que têm alguém que lhes faz refeições, que lhes lava a roupa, que tem disponibilidade para ficar com as crianças, mas no meu caso sou apenas eu e o meu marido. Durante a semana somos apenas as 3. Se tiver reuniões fora do horário escolar ou deslocações, elas vão comigo. É toda uma questão de preparação e de ter também compreensão por parte das outras pessoas. Quando há situações de grandes viagens ou que não possam mesmo acompanhar-me, articulo com o meu marido para que fique com elas. Já tentei voltar ao ativo nos bombeiros mas é impossível porque requer uma grande disponibilidade, incluindo à noite e não é compatível neste momento com a minha situação familiar”.
Beira Baixa TV – A Ema também se movimenta a nível político. A maternidade é suficientemente apoiada pelos vários governos?
Ema Gomes – “Não é. Ter um filho é dispendioso. Infelizmente os salários e as condições de vida não permitem que as famílias possam ter filhos sem fazer um planeamento financeiro. A crise que o SNS atravessa motiva também grandes incertezas na vigilância da gravidez e até no nascimento . A instabilidade laboral, seja a nível de contratos ou de horários. É essencial que as crianças passem tempo com as famílias e em Portugal não é fácil conseguir que haja esse tempo. A falta de vagas nas creches e na pré-escola. São tudo fatores decisivos para que as famílias escolham ter ou não filhos”.
Beira Baixa TV – Quer deixar uma mensagem às suas filhas?
Ema Gomes – “Às minhas filhas, Amo-vos!”.
