Dia Mundial do AVC

Dia Mundial do AVC

Hoje, 29 de outubro, assinala-se o . Uma data que, para mim, não é apenas uma efeméride. É uma parte da minha história. Uma história de luta, de superação e de resistência, mas também de obstáculos que continuam a existir todos os dias.

No passado dia 24 de outubro, participei na Assembleia Comunitária da Inclusão Diferenciadora, uma iniciativa da Assembleia de Freguesia, que procurou sensibilizar a comunidade para a importância da acessibilidade, da igualdade e do respeito pela diversidade.

Foi nesse contexto que partilhei algumas das minhas preocupações e deixei um apelo à construção de uma comunidade verdadeiramente inclusiva.

Nos últimos tempos, tenho publicado fotografias de estacionamentos abusivos e de outros obstáculos que condicionam a minha mobilidade. Não o faço por gosto, nem para apontar o dedo gratuitamente. Faço-o porque estes obstáculos existem, porque me afetam diretamente e porque acredito que só falando deles poderemos contribuir para mudar comportamentos.

Utilizo uma scooter de mobilidade. Quando círculo no passeio e encontro um carro mal-estacionado, um obstáculo ou um espaço por onde não consigo passar, sou obrigada a procurar uma alternativa.

E, muitas vezes, essa alternativa passa por voltar para trás, procurar um rebaixamento do passeio — geralmente junto a uma passadeira — e tentar encontrar outro caminho. Isto quando consigo inverter a marcha, porque nem todos os passeios me permitem fazê-lo.

Por vezes, tenho de recorrer à marcha-atrás. Outras vezes, fico sem saída.
Aquilo que para muitos é apenas um carro mal estacionado ou um passeio parcialmente obstruído pode, para mim, significar ser impedida de prosseguir caminho.

É esta realidade que tantas vezes escapa a quem não enfrenta diariamente as dificuldades da mobilidade condicionada.

Em 2014, sofri um AVC hemorrágico que me deixou sequelas para a vida. O prognóstico era que, provavelmente, não voltaria a sair da cadeira de rodas.
Mas não me conformei.

Trabalhei, lutei, esforcei-me e enfrentei uma recuperação que exigiu muito de mim. Contrariei as expectativas e consegui voltar a andar.

Não desisti de mim. Não me entreguei à ideia de que a minha vida tinha terminado naquele dia.

Continuei a lutar pela minha autonomia, pela minha dignidade e pelo direito de continuar a participar na sociedade.

Mas sair da cadeira de rodas não significou deixar de enfrentar dificuldades. E é precisamente por conhecer esta realidade que sinto a responsabilidade de continuar a falar, a alertar e a sensibilizar.

Hoje, , partilho as palavras que proferi na Assembleia Comunitária da Inclusão Diferenciadora. Porque falar de inclusão é falar de todos nós, uma vez que uma comunidade verdadeiramente inclusiva não deixa ninguém para trás.

Hoje estamos aqui para assinalar um dia dedicado à deficiência.

Mas gostaria que este não fosse apenas mais um dia no calendário.

Porque falar de deficiência, inclusão e acessibilidade é falar, acima de tudo, de pessoas, de direitos e de dignidade.

Quando falamos de mobilidade, pensamos muitas vezes numa rampa, numa passadeira ou num passeio rebaixado. E, sim, tudo isso é importante.

Mas a mobilidade e a inclusão são muito mais do que um rebaixamento de passeio.

É poder sair de casa sem encontrar obstáculos. É atravessar uma rua em segurança. É entrar num edifício, utilizar um serviço, frequentar um espaço cultural, praticar desporto ou simplesmente sentar-se num jardim como qualquer outra pessoa.

Mas a inclusão vai ainda mais longe.

É também combater a falta de empatia, a indiferença, o preconceito e o olhar que julga antes de compreender. É abandonar a ideia de que os problemas dos outros não são da nossa responsabilidade.

Porque é também aí que começa a exclusão.

Uma pessoa pode encontrar uma rampa perfeitamente construída e, ainda assim, deparar-se com uma sociedade cheia de barreiras.

Há barreiras feitas de betão, mas há outras, muitas vezes mais difíceis de ultrapassar, feitas de preconceito, desconhecimento e indiferença.

A inclusão não pode depender apenas da boa vontade de alguns. Tem de ser um compromisso de todos.

Tem de estar presente quando planeamos uma obra, construímos um passeio, organizamos uma atividade cultural, garantimos o acesso à informação ou tomamos decisões que afetam a vida das pessoas.

Porque as pessoas com deficiência não querem apenas que lhes facilitem a vida.

Querem ter as mesmas oportunidades. Querem participar, decidir, ser ouvidas e respeitadas.

E existe uma diferença enorme entre fazer por alguém e fazer com alguém.

Durante demasiado tempo, tomaram-se decisões sobre as pessoas com deficiência sem que estas fossem verdadeiramente ouvidas.

É tempo de deixar de decidir apenas sobre as pessoas e começar a decidir também com as pessoas.

Uma comunidade inclusiva não é aquela que apenas elimina degraus. É aquela que elimina barreiras.

É aquela onde uma pessoa com mobilidade reduzida pode circular em segurança; onde uma pessoa surda tem acesso à informação; onde uma pessoa cega consegue orientar-se; onde uma pessoa com deficiência intelectual pode compreender e participar; onde uma criança com deficiência pode brincar com as outras crianças; e onde um adulto pode trabalhar, conviver e participar plenamente na vida da comunidade.

É também uma comunidade onde uma pessoa idosa não é obrigada a ficar em casa porque o espaço público deixou de lhe permitir sair em segurança.

Incluir é não deixar ninguém para trás. E isso não é um favor. É um direito.

Por isso, deixo um apelo: continuemos a construir rampas, a corrigir passeios, a melhorar passadeiras e a tornar os edifícios acessíveis.

Mas façamos também outra obra, talvez ainda mais importante: a construção de uma sociedade mais atenta, mais disponível e mais humana.

Porque uma comunidade verdadeiramente acessível não se mede apenas pelo número de rampas que construiu.

Mede-se pela forma como trata as pessoas, pela capacidade de ouvir, pelo respeito pelas diferenças e pelas oportunidades que oferece a cada um para participar plenamente na vida coletiva.

A deficiência não deve retirar direitos a ninguém. O que tem de mudar são as barreiras que a sociedade coloca no caminho.

Que este dia não termine quando terminar esta sessão. Que deixe uma pergunta dentro de cada um de nós:

O que posso eu fazer para tornar a minha freguesia mais inclusiva?

Porque a inclusão não começa amanhã.

Começa na próxima atitude, no próximo gesto, no próximo olhar e na próxima decisão.

Começa em cada um de nós.

(Cristina Saraiva, 29 de outubro de 2026)

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